quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O cristianismo e as religiões



Pr. Fábio Porto (Colunista do NI)

Os discípulos foram enviados pelo próprio Cristo a anunciar o Evangelho a todas as pessoas do mundo. Isso quer dizer que a Boa Nova deve alcançar a todos que tenham ou não religião. Vale lembrar que o evangelho está para além das religiões. Há muitos séculos grande parte dos seres humanos pertence a alguma das grandes religiões mundiais. Será que a mensagem que Jesus solicitou que fosse levada chegou a esses povos? e mesmo que tenha chegado essa boa nova foi entendida? O que é de fato essa boa nova?

Observando a história das missões percebemos que não há mais a possibilidade de repetir o método que foi usado pelos missionários cristãos. A superioridade material ou cultural em relação ao diferente foi um erro terrível no anúncio do Evangelho. Essa postura mostra apenas uma relação de poder e não a relação de amor que é a proposta do Evangelho de Cristo.

O catolicismo tradicional pregou durante muito tempo que apenas se salvariam aqueles que pertencessem à Igreja Católica cumprindo toda a sua doutrina. Por outro lado os protestantes diziam que somente nos seus redutos a salvação se processaria. Os dois seguimentos colocam no inferno os que não aceitam a sua doutrina. Essa postura mostra apenas a arrogância que católicos e protestantes trazem nas suas estruturas quem visam salvar o mundo. É a altivez do poder em detrimento ao anúncio do Evangelho do serviço, do amor.

Muitos missionários no afã de salvar as pessoas do inferno eterno rezavam a cartilha de uma instituição que apenas queria e quer poder. Ao invés de representar Jesus de Nazaré representavam um sistema que está baseado no poder material construído ao logo da história pela cristandade. O fim de todo propósito era manter o poder. E poder cega as pessoas. Os poderosos não têm mais sensibilidade para com a alteridade. Se o poder da instituição é divino tudo é admitido e legalizado. O teólogo José Comblin diz que “as pessoas podem ter uma consciência individual muito humilde e ser arrogantes no seu comportamento social. Em nome de Deus tudo é permitido, todos os abusos são legitimados”. A história das religiões mostra que essa era a postura a ser tomada com o apoio dos impérios.

O encontro dos missionários com as religiões mostrou que o objetivo era fazer proselitismo e o meio mais comum era batizar os povos ditos pagãos. O importante era salvar as almas do inferno. O batismo sempre foi mais importante do que a evangelização proposta por Cristo e, o evangelizar era ensinar as doutrinas. Para os cristãos, até o século XX as outras religiões não tinham nada que prestasse, ou melhor, era coisa do demônio para atrapalhar o Reino de Deus, e muito menos elas poderiam ensinar alguma coisa aos cristãos. Sempre a superioridade/poder era o parâmetro para avaliar o pluralismo religioso.

A partir desse período a compreensão teológica, em linhas gerais, mudou em relação à salvação dos povos ditos pagãos. Passou-se a reconhecer que eles tinham algum valor e que poderiam fazer boas obras, mas que sua religião era errada e, portanto, deveriam deixá-la por conta de sua nova vida com Cristo. Os pagãos não eram mais passivos na salvação, mas deveriam negar tudo que existe na sua religião. Fica claro que a mudança foi muito tímida no que consiste o cerne do diálogo no pluralismo religioso. O enfraquecimento dos impérios forçou uma mudança de postura na forma de se fazer missões.

O cristianismo tem dificuldades de dialogar com outras religiões porque ele se achar superior. O cristianismo ainda não aprendeu a dialogar com as diversas vertentes que compõe o mundo cristão e muito menos com os que não são cristãos. Porque o diálogo mostra que os dois têm condições de aprender mutuamente. O problema é que o cristianismo pensa saber tudo sobre a vida e sobre Deus e dessa forma não tem nada a aprender com o diferente. Ao contrário do que muitos pensam, conhecer o diferente fortalece ainda mais o conhecimento de si mesmo. Portanto, a falta de conhecimento do que é Evangelizar leva a falta de diálogo com as religiões e, com isso, instala-se o uso do poder e da superioridade que gera ódio e má notícia ao invés do amor e Evangelização.

De que maneira podemos imaginar o relacionamento entre cada religião e a missão cristã? Cremos que ainda é possível Evangelizar sem excluir ou destruir as culturas e as religiões do mundo. Para isso é preciso o autoconhecimento. Os tempos hodiernos obrigam os cristãos a voltar sobre si mesmos para aprender e descobrir o que é o cristianismo e o que é a evangelização da humanidade. Evangelizar é anunciar a Boa Nova como algo que corrobora na religião e na cultura do outro que consiste na transformação do homem e da mulher em humanos.

Sabemos que os passos dados em direção ao diálogo e ao respeito ao diferente são ainda tímidos. Contudo, já se ouve vozes em prol dessa tarefa que não é fácil, mas necessária no processo de evangelização do mundo e, que precisam ser engrossadas as fileiras desse coral que canta a diversidade e o pluralismo como algo possível.

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