terça-feira, 7 de setembro de 2010

O Ambientalista Cético garante: não mudou de ideia


Íntegra da entrevista que fiz com Bjorn Lomborg na sexta-feira e que foi publicada hoje no caderno Nosso Mundo Sustentável

Saiu na capa do jornal britânico The Guardian, um dos mais respeitados do mundo, na semana passada: “A voz divergente das mudanças climáticas mudou de ideia”. Pouco depois, vários sites de todas as partes do planeta repercutiam a improvável notícia: em seu novo livro, o pesquisador dinamarquês Bjørn Lomborg, autor de alguns dos mais controversos livros da área, O Ambientalista Cético: Revelando a Real Situação do Mundo e Cool It: O Guia de Um Ambientalista Cético sobre o Aquecimento Global, defende que precisamos combater as mudanças climáticas, quem diria. Houve até quem dissesse que ele “virou a casaca”.
O Nosso Mundo quis tirar isso a limpo. Em entrevista por telefone às 12h de sexta-feira, Lomborg revelou que ficou tão surpreso quanto a maioria das pessoas ao ler as notícias sobre Smart Solutions to Climate Change (Soluções Inteligentes para as Mudanças Climáticas, em português). Ele garante que a obra editada por ele _ uma série de artigos de especialistas escolhidos pelo seu grupo, o Copenhagen Consensus, que analisam oito métodos de combate ao aquecimento global _ enfatiza ainda mais as ideias que sempre defendeu, e não o contrário. Confira trechos da conversa:

Nosso Mundo Sustentável - A imprensa internacional tem falado que o sr. mudou de ideia em relação ao clima. É verdade?
Bjorn Lomborg - Não mudei de ideia. É o mesmo que sempre falei, mas agora temos muito mais certeza de que está correto. Tenho dito há muito tempo três coisas: o aquecimento global é real e causado pelo homem, o tipo de abordagem que está sendo usada, ao estilo do Protocolo de Kyoto, não está funcionando política e economicamente, e que devemos aumentar dramaticamente os investimentos em energias renováveis. O que é lindo neste novo livro é que agora temos evidências, baseadas nos melhores estudos de custo-benefício, de que este é realmente um ótimo investimento. Investir US$ 100 bilhões em energias verdes é uma forma muito melhor de gastar dinheiro do que a atual abordagem, em que, para cada dólar gasto, você evitará apenas dois ou três centavos de danos climáticos. Mas se investirmos em pesquisas em energias renovéveis, para cada dólar gasto, você evitará US$ 11 de danos climáticos _ cerca de 500 vezes mais.

Nosso Mundo _ Não mudou nem um pouco de ideia, então?
Lomborg - Não. Foi a manchete do The Guardian, mas o fato é que ele e outros jornais, que sempre enfocaram as políticas de cortes de emissões de gases-estufa, agora estão dando espaço em suas capas para soluções mais inteligentes. Isso é brilhante.

Nosso Mundo - Esse seu novo livro não seria uma nova estratégia sua, algo como apresentar o mesmo produto com uma embalagem diferente para conquistar novos consumidores (simpatizantes)?
Lomborg - Honestamente, nunca pensei nisso como uma “embalagem”, porque fiquei tão surpreso quanto você deve ter ficado ao ler a manchete do The Guardian. Digo apenas que não se trata de discutir se o aquecimento global é real ou não. Infelizmente, ocorre este tipo de conversa improdutiva, em “preto-e-branco”, sobre se o aquecimento global é uma farsa ou se é o fim do mundo. Não é nenhum dos dois. O aquecimento global é realmente um problema, mas não é o fim do mundo. Vamos mudar de página e ter conversas inteligentes. É um pouco como se fosse uma discussão sobre se a Terra é redonda ou não. A questão para Cristóvão Colombo foi: qual é a melhor maneira de chegar às Índias Ocidentais? É essa a questão que precisamos fazer: como nós, pessoas inteligentes, construiremos uma sociedade que não emite muito CO2? Éssa é a discussão que esse livro propõe. Se conseguirmos fazer com que as pessoas nos escutem porque elas acreditem que sejam soluções inteligentes, ficarei feliz.

Nosso Mundo - O sr. ainda acredita que as mudanças climáticas não estão entre os principais problemas do mundo, ou a questão subiu em seu ranking?
Lomborg _ O The Guardian publicou uma declaração minha dizendo que é uma das principais preocupações. Na introdução do livro, digo isso porque as pessoas veem as mudanças climáticas dessa forma. Mas se você olhar para o Copenhagen Consensus de 2008, onde analisamos as soluções para os maiores problemas do planeta, está claro que o clima não está no topo, mas ainda assim se trata de um bom investimento. Além disso, precisamos reconhecer que, apesar do que eu, você e todos os outros falam, o mundo vai gastar uma grande quantidade de dinheiro nas mudanças climáticas de qualquer maneira. Só a União Europeia se comprometeu a gastar US$ 250 bilhões para cortar suas emissões para que, no final do século, a temperatura esteja 0,05ºC mais baixa. Então, já estão gastando muito dinheiro em algo que não dará resultado. O que estou dizendo agora é que, se vamos gastar esse dinheiro, que façamos isso da melhor forma possível. Mas sugiro também que podemos gastar esses US$ 250 bilhões não apenas no combate às mudanças climáticas, mas em soluções para adaptação ao seu impacto, e depois ainda teríamos cerca de US$ 100 bilhões para lidar com os maiores problemas, que afetam metade da população global neste momento: dar-lhes água potável, saneamento básico, saúde e educação.

Nosso Mundo = Como o Copenhagen Consensus escolheu os autores dos capítulos do novo livro?
Lomborg - Basicamente, procuramos pelos melhores profissionais do mundo em suas respectivas áreas. Fizemos uma lista sobre a qual praticamente todos na comunidade iriam concordar: “realmente, estas são as melhores pessoas nesta área”. E, francamente, quase todos queriam trabalhar conosco. Então, só foi uma questão de definir quem poderia fazer em um determinado prazo. Eles são amigos meus? Não. São realmente os melhores economistas do clima do mundo.

Nosso Mundo - O chefe do IPCC, Rajandra Pachauri, que já o chamou de “Hitler do clima”, elogiou o novo livro. O sr. ficou surpreso?
Lomborg - Pachauri, como muitos outros, tinha uma visão muito negativa de mim. Acredito que isso se deva ao fato de ele nunca ter lido nada que eu disse, mas apenas ouvido o que outras pessoas falaram sobre mim, de que sou uma má pessoa. Nos conhecemos em uma reunião da Fundação Nobel na Alemanha, em um debate sobre mudanças climáticas. Sentamos ao lado um do outro, e ele, surpreendentemente, disse que, por diversas vezes, se viu concordando comigo. Isso não significa que concordamos em tudo, claro, mas o ponto crucial é que ele percebeu que dividimos ideias sobre o que fazer para o clima e que posso ajudar a encontrar soluções realmente inteligentes para as mudanças climáticas.

Nosso Mundo - O sr. está longe de ser o que atualmente chamamos de “céticos do aquecimento global”, não é?
Lomborg - Com certeza. Não sou um cético porque não confio na tese do aquecimento global, ele é real. Sou um cético porque as atuais abordagens políticas, ao estilo do Protocolo de Kyoto, não estão funcionando. Acredito que isso precisa ser dito. Temos tentado as mesmas políticas pelos últimos 18 anos, que têm falhado desde o Rio, em 1992. Em algum momento, devemos nos perguntar: temos de continuar com a mesma política fracassada ou devemos procurar por outras mais inteligentes?

Nosso Mundo - Há uma possibilidade de você trabalhar com o IPCC?
Lomborg - É importante reconhecer que o IPCC não está trabalhando com soluções, está descrevendo o problema. Por fundação, é politicamente neutro. É por isso que eu acho que a função do IPCC é convencer as pessoas que o aquecimento global é real e de que é importante. Creio que tenha feito um bom trabalho, mas agora temos de ir além disso, pensar nas soluções inteligentes, e não temos tido muitas conversações sobre isso. Infelizmente, quase todas são sobre o Protocolo de Kyoto. Acho que o IPCC e este livro se complementam. O IPCC fala que o aquecimento global é um problema, e o livro fala: e então, o que fazemos agora?

Nosso Mundo -Qual é o papel do Brasil neste sentido?
Lomborg - Acho que o Brasil, junto com os demais países em desenvolvimento, pode mudar o foco da nossa atenção, em nos fazer perceber que cortes de carbono em grande escala só vão ocorrer se houver tecnologia. O Brasil está muito bem nisso, com hidreletricidade e etanol. Mas a maior parte do mundo não está. E não vamos tirar a China dos combustíveis fósseis sem que tenhamos melhor tecnologia. Definitivamente, espero que o Brasil tome parte em ajudar-nos a entender que sem aumentar dramaticamente o investimento em energias renováveis, sem que essas fontes de energia sejam muito mais baratas, não iremos solucionar o problema climático. Se o Brasil for uma das grandes nações que ousarem dizer: “a atual abordagem é ruim e não funciona”, poderia promover mudanças para melhor.

Nosso Mundo - Mas o senhor acha que o Brasil é um modelo?
Lomborg - Não. Honestamente, nenhum país do mundo é. Gastamos muito pouco em desenvolvimento de energias verdes. Mas continuamos com abordagens fracassadas. Nos reuniremos em Cancún (na COP16, a Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas) em novembro para fazer exatamente a mesma coisa que fizemos, e falhamos, em Copenhague (na COP15, em dezembro passado). E no ano que vem na África do Sul. Em algum momento, alguém terá de falar que isso não está funcionando. Se o Brasil falasse: “nós vamos gastar mais dinheiro em pesquisa e desenvolvimento de energias verdes”, ajudaria.

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