segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Ingrid Betancourt narra em livro o martírio como refém das Farc

"Dezembro de 2002. Tinha tomado a decisão de escapar. Era minha quarta tentativa". Assim começa "No hay silencio que no termine" ('Não há silêncio que não se acabe', numa tradução livre), aguardado livro da ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt, que foi mantida refém pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) durante seis anos e meio, e que será posto à venda esta terça-feira na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos.

O cotidiano no cativeiro, os altos e baixos, e a intervenção política dos presidentes venezuelano, Hugo Chávez, e francês, Nicolas Sarkozy, que determinam o final feliz de sua história, são contados nas 700 páginas deste livro cujo título faz alusão a um poema do chileno Pablo Neruda.

Na época candidata à Presidência pelo partido Oxigênio Verde, Ingrid Betancourt foi sequestrada em 23 de fevereiro de 2002, perto de San Vicente del Caguán (sudeste) pela guerrilha das Farc, em plena campanha eleitoral.

Desespero, humilhação, impotência e brutalidade recheiam as páginas de "No hay silencio que no termine", que a franco-colombiana Ingrid começou a escrever a mão em fevereiro de 2009, e em francês porque o idioma lhe deu a "distância necessária" para relatar o que havia vivido.

Os repentinos deslocamentos sob chuvas torrenciais em uma selva a qual Ingrid define como "abominável", repleta de feras, as diferenças que surgem com Clara Rojas, seu encontro com o senador Luis Eladio Pérez - "nos tornamos inseparáveis", conta - as conversas com alguns comandantes da guerrilha, os livros e a rádio completam os capítulos de um relato sombrio, sem golpes baixos ou revelações inesperadas ou escandalosas.

A chegada dos três reféns americanos marca uma mudança nas relações entre os cativos: o tempo passa e crescem a tensão, o ressentimento e a discórdia que os sequestradores nutrem contra a "franco-colombiana", a quem culpam pela inclusão, pela União Europeia (UE), na lista de organizações terroristas.

Ingrid Betancourt, agora com 48 anos, a quem alguns chamam respeitosamente de "doutora" e outros ofensivamente de "cucha" (velhota), descreve que descobriu "outra dimensão" de si mesma durante as noites em vigília, graças a uma Bíblia, que lhe permitiu alimentar sua fé religiosa.

"Se Deus havia decidido que não fosse livre, tinha que aceitar a ideia de que não estava preparada para a liberdade", conta Betancourt, após narrar sua tentativa de fuga com o senador, em julho de 2005, após o que seus sequestradores a acorrentaram a uma árvore.

"Podia me movimentar para ir da minha maca até a latrina, mas me estrangulava chegar até a fonte d'água", explica Ingrid Betancourt, sempre acompanhada pela imagem de seu pai, a quem nunca mais voltaria a ver com vida.

Sua saúde se deteriora e o esgotamento se soma ao isolamento a ela imposto pelos líderes guerrilheiros, até que em agosto de 2007 começa a cair em depressão.

O primeiro que lhe deu "esperança" em sua libertação foi o ex-primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, durante visita a Bogotá, em 2002, na qual apelou pelos reféns.

"Agora sei que a França não nos abandonará nunca", afirma a ex-refém.

Em outubro de 2007, a terceira "prova de vida" - as imagens e uma carta para sua mãe deram volta ao mundo - no marco dos "esforços do presidente (venezuelano) Hugo Chávez", que tentou "vender às Farc a ideia de que nossa libertação poderia ser vantajosa politicamente. Uribe tinha entendido", afirma Betancourt.

Sarkozy foi quem "tornou o caso dos reféns colombianos um assunto mundial", acrescenta.

A morte de Raúl Reyes e de Manuel Marulanda, líderes máximos das Farc, lançam por terra suas esperanças até o dia 2 de julho de 2009, quando ela e outros reféns são obrigados a embarcar em um helicóptero na bem sucedida "Operação Xeque", do exército colombiano, quando um soldado disfarçado de guerrilheiro brada em pleno voo: "Somos o exército da Colômbia! Estão livres!".

"Um longo, muito longo e doloroso grito surgiu do mais profundo do meu ser e encheu minha garganta como se vomitasse fogo para o céu", diz Betancourt ao relembrar o momento exato de sua libertação.

"Longe do perigo (...), me dei conta de que a serenidade de ter recuperado minha liberdade não poderia ser comparada, em nada, com a intensidade do martírio que conheci", reflete Betancourt no livro, que dedica aos seus "irmãos reféns", a seus filhos, Melanie e Lorenzo, e à sua mãe.

Fonte: AFP

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