segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fast food francês dobra as vendas com sanduíche muçulmano

O público muçulmano que vive na França, estimado em 5,5 milhões de pessoas, tem demonstrado ser um mercado lucrativo para as empresas que investem em produtos adaptados às regras da religião. O principal concorrente da gigante dos fast food McDonalds na França, a cadeia de restaurantes Quick, dobrou as vendas em oito filiais que passaram a oferecer exclusivamente sanduíches com carne "halal". Na produção deste tipo de carne, o animal é abatido de acordo com os preceitos muçulmanos, descritos no Corão, o livro sagrado do islamismo.

A experiência de seis meses foi tão animadora que nesta semana o Quick decidiu quase triplicar o número de filiais que vão passar a vender apenas este tipo de sanduíche: desde quarta-feira, são 22 restaurantes halal da marca espalhados por toda a França. A decisão faz parte de uma estratégia comercial de conquista de um mercado no qual o McDonalds não deve se concentrar tão cedo.

"Estamos em um mercado muito concorrencial, estamos sempre sendo desafiados. Este é um meio de ganhar parte do mercado de um concorrente", explicou o diretor-geral da rede francesa, Jacques-Edouard Charret, em uma entrevista coletiva. "O interesse comercial nesta decisão é inegável."

A expansão do Quick halal representa 6% do total da rede, que conta com 358 lojas no País - contra 1.150 da americana McDonalds -, além de franquias em sete outros países, como Bélgica, Rússia e Argélia. As filiais que haviam realizado a primeira experiência ficavam em Toulouse, Marselha, Lyon, Roubaix e na periferia parisiense, em bairros onde a presença de comunidade muçulmana é muito significativa.

Agora, essa rede se ampliou em especial na periferia parisiense, mas chegou inclusive em cidades onde a população islâmica sofre mais preconceitos, como em Estrasburgo, na região da Alsácia. O aumento das vendas também significou ampliação do quadro de funcionários em 25% - ou 550 novos funcionários - nas lojas adaptadas.

A decisão de deixar de vender carne comum nestas filiais, no entanto, provocou forte polêmica na França, um país laico onde qualquer imposição ligada à religião é vista como um atentado à República. Até o ministro francês da Agricultura, Bruno Le Maire, chegou a dizer que o "marketing étnico" era contra os valores da França. No entanto, a direção do restaurante parece não se intimidar, e afirma que os restaurantes especializados neste público não representam uma discriminação aos não-muçulmanos.

"Pelo contrário, é uma abertura. É claro que a comunidade muçulmana vai passar a vir mais, mas isso não significa que os demais vão deixar de comer aqui. O produto tem exatamente o mesmo gosto", disse o gerente da filial de Roubaix, Pascal Nys. A loja administrada por ele foi a que registrou o maior sucesso no teste preliminar, com as vendas sendo triplicadas."Não podemos esquecer que a carne halal só é diferente no abate. No restante, ou seja, no corte e na preparação, é tudo exatamente igual a qualquer outra carne."

A carne vendida nas filiais halal é certificada pelas mesquitas de Paris e Evry, duas das principais francesas. A sua principal característica é que o animal tem de estar acordado e consciente no momento do abate, que é realizado por um abatedor credenciado por uma mesquita e que vai evocar o nome de Alá durante o ato. O animal também precisa estar virado em direção à Meca no momento do sacrifício para que a sua carne esteja de acordo com as regras muçulmanas.

"Nós não temos qualquer motivação filantrópica ou religiosa. Não existe preferência por este o aquele público. Existe é um enorme mercado e nós queremos ser o líder neste mercado", afirmou Nys. Outra adaptação ao público fiel ao Islã foi a de substituir os sanduíches que continham bacon por carne de frango defumada, já que a carne de porco é proibida na religião.

A França é o país que mais acolhe muçulmanos na Europa. Por conta disso, o mercado halal no País tem crescido em uma velocidade impressionante e já representa o dobro do mercado de produtos orgânicos, chegando a movimentar 5,5 bilhões de euros ao ano e demonstrando um potencial de crescimento estimado anual em 20%. Este nicho saiu há tempo do comércio especializado e hoje é possível se encontrar salsichas, frios e refeições congeladas nas prateleiras de qualquer supermercado tradicional, como Carrefour ou Monoprix.

Fonte: ClickPB / Terra

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