sábado, 25 de setembro de 2010

As cicatrizes do estresse

Pesquisa suíça afirma que as experiências traumáticas, como as do Holocausto, podem deixar marcas genéticas por várias gerações
Mônica Tarantino - Isto É
SOBREVIVENTE

Laks esteve em campo de concentração (no detalhe). Recuperou a alegria de viver fazendo palestras

Muitos pesquisadores estudam a repercussão dos horrores vividos nos campos de concentração nazistas na segunda geração de sobreviventes do Holocausto. O que se quer é avaliar as consequências psicológicas e físicas a longo prazo dessa tragédia para sempre cravada na memória da humanidade. Já se sabe que os filhos e filhas dos sobreviventes podem reproduzir, sem perceber, as alterações de comportamento manifestadas pelos pais, como inseguranças, irritabilidade sem motivo e tendência ao isolamento. Mas um estudo recente da neurobióloga suíça Isabelle Mansuy, do Instituto de Pesquisa do Cérebro da Universidade de Zurique, está ampliando a compreensão desses efeitos. “O estresse severo e crônico causa modificações genéticas que podem ser transmitidas às próximas gerações”, disse Isabelle à ISTOÉ.

As proposições da pesquisadora suíça baseiam-se na observação de animais submetidos a situações traumáticas logo após o nascimento. Para o estudo, que durou oito anos, os pesquisadores expuseram filhotes de camundongos recém-nascidos a estresse intenso, separando-os da mãe por duas semanas. Os ratos jovens apresentaram sintomas de depressão, impulsividade, apatia e desespero, entre outros, assim como as suas mães. Além disso, os comportamentos alterados foram mantidos ao longo de suas vidas. O trabalho foi publicado na revista científica “Biological Psychiatry”.

Na segunda etapa do estudo, os pesquisadores avaliaram os tecidos cerebrais e os espermatozoides dos camundongos machos. “Encontramos mudanças na expressão de cinco genes associados à regulação do estresse e a comportamentos como a ansiedade”, disse Isabelle. “Alguns deles passaram a trabalhar demais, enquanto outros ficaram menos ativos do que era esperado”, completa a pesquisadora. No estudo, a transmissão das alterações vistas nos machos traumatizados foi constatada em até três gerações, ou seja, nos descendentes dos filhos. Na próxima fase a cientista avaliará outros genes que também possam ter sofrido mudanças nos animais.

 LIÇÕES

Ferreira-Santos, que foi refém de assalto, ensina o filho a manter a calma para enfrentar situações de violência

A suspeita de transmissão genética das marcas profundas do estresse é uma questão controversa na comunidade científica. Por isso, o estudo de Isabelle – o primeiro a revelar dados que constatam o fenômeno entre as gerações – está causando muito debate. “É possivel pensar que o mesmo mecanismo se repete em seres humanos”, diz Isabelle. Ela defende ainda que as alterações que encontrou em genes podem afetar não apenas populações como a que sobreviveu ao Holocausto, mas também as vítimas de outras situações profundamente estressantes, como desabamentos, enchentes, acidentes, violência familiar e sequestros.

Para o psicólogo Eduardo Ferreira- Santos, especialista em estresse póstraumático, de São Paulo, há um longo caminho a ser percorrido até que se prove que o estresse modifica os genes das pessoas e que isso pode ser passado de uma geração a outra. “Muitos estudos deverão ser feitos”, diz. Ele afirma que não se pode esquecer o caráter individual da resposta ao estresse. Cada pessoa reage de acordo com a sua capacidade de adaptação. O próprio Ferreira-Santos foi exposto ao trauma quando ficou refém de um assalto a banco. “Não apresentei sintomas de estresse pós-traumático, mas agora prefiro pagar contas pela internet”, conta. O psicólogo também se preocupa em educar o filho, Guilherme, 21 anos, para enfrentar com calma situações de violência urbana. “Isso reduz o impacto”, diz ele.

A informação trazida pelo novo estudo também surpreendeu Aleksander Laks, 82 anos, presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista. “A ideia de que o estresse pode causar mudanças nos genes é algo novo para mim, mas pode ser que isso seja mais uma consequência”, diz ele. Laks ficou dos 12 aos 17 anos no campo de concentração de Auschwitz, situado nas proximidades da antiga fronteira alemã e polonesa de antes da guerra. Hoje ele vive em Copacabana, no Rio de Janeiro, perto dos filhos e netos e faz palestras diárias em escolas sobre o que testemunhou. “Falar sobre o que ocorreu me ajudou a lidar melhor com o que vivi com o passar do tempo”, diz ele. “Contei tudo aos meus filhos e netos e acredito que eles não ficaram traumatizados”, diz Laks. Os jovens, de fato, o adoram. No site de relacionamentos Orkut há uma comunidade chamada “O sr. Laks é um fofo”, onde 359 estudantes declaram seu encantamento com as lições de vida dadas por ele.

Ainda que as experiências traumáticas possam deixar cicatrizes genéticas, isso não é uma sentença. Por causa delas, a pessoa pode ter predisposição para ser ansiosa ou deprimida e jamais apresentar a alteração. “Tudo depende dos estímulos recebidos, do ambiente em que crescem e das suas experiências”, diz a psicóloga Ana Maria Fonseca Zampieri, também especialista em estresse pós-traumático. Para ela, as revelações do grupo suíço são mais um caminho para entender a vulnerabilidade de quem passa por acontecimentos traumáticos e de suas famílias. “Isso mostra quanto é importante dar suporte psicológico àqueles que sofreram catástrofes e às suas famílias”, conclui.


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