sábado, 21 de agosto de 2010

Seis razões para não deixar o Irã ter a bomba

CHRISTOPHER HITCHENS

é escritor, colunista da revista Vanity Fair, autor e colaborador regular do New York Times e The New York Review of Books. Escreve quinzenalmente em ÉPOCA

Perdi a conta do número de colunas publicadas neste mês sobre a possibilidade de um ataque israelense às instalações nucleares secretas do Irã. As especulações não devem parar, pois a Rússia continua com sua política de ajudar Teerã a acelerar seu programa de reatores e as sanções contra o regime de Mahmoud Ahmadinejad tiveram um progresso de milímetros. A contribuição mais significativa da mídia veio do meu amigo Jeffrey Goldberg, na capa da revista The Atlantic.

A partir da leitura desse artigo, dá para ter certeza de uma coisa: o governo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, quer deixar claro que, na ausência de uma decisão dos Estados Unidos, seu país pode e vai organizar um ataque em um futuro não muito distante. Para o gabinete de Netanyahu, uma bomba iraniana é incompatível com a sobrevivência a longo prazo do Estado israelense e até do povo judeu.

Seria uma pena se o debate continuasse a ser conduzido nesses termos relativamente estreitos. Uma frase do texto de Goldberg ilustra o que quero dizer:

“Israel, disse-me Netanyahu, está preocupado com vários problemas, não somente que o Irã, ou um de seus procuradores, destrua Tel Aviv.”

Por que Tel Aviv? É a cidade mais secular, moderna e sexualmente tolerante de Israel, o que poderia torná-la alvo da ira apocalíptica dos mulás. Mas é também o lar de muitos árabes e muçulmanos, assim como as cidades costeiras vizinhas a ela. E, como eu nunca me canso de observar, ainda não foi inventada nenhuma arma de destruição em massa que possa fazer distinção com base em religião ou etnia.


Na ausência de uma decisão dos Estados Unidos, Israel pode e vai organizar um ataque ao Irã

Então, por que Netanyahu não disse Jerusalém, que ele e seu partido consideram ser a verdadeira capital de Israel? Certamente porque isso iria imediatamente levantar a questão sobre se a teocracia iraniana realmente pretende atingir o Domo da Rocha (o terceiro local mais sagrado para o islã) e outros pontos de veneração muçulmana. Isso sem falar sobre o número de palestinos que seriam mortos em um ataque desse tipo. Há algo de sectário, quase racista, na forma como esse aspecto da questão sempre é deixado de lado.

Enfim, se o Irã conseguir se tornar uma potência nuclear, vai acontecer o seguinte:

1) A lei internacional e a liderança das Nações Unidas vão estar irremediavelmente arruinadas. Os mulás terão quebrado todas as promessas solenes que já fizeram: à Agência Internacional de Energia Atômica; à União Europeia, que até agora foi sua principal interlocutora nas negociações; e às Nações Unidas.

2) A Guarda Revolucionária, que no ano passado abriu seu caminho a tiros e estupro rumo a um poder quase absoluto no Irã, é também a guardiã do programa ilegal de armas. A consumação desse projeto reforçaria a face mais agressiva do regime.

3) O poder da Guarda de projetar a violência para fora das fronteiras do Irã seria aumentado. Ficaria mais difícil conter qualquer subversão da democracia libanesa pelo Hezbollah, qualquer ataque de míssil contra Israel ou qualquer conluio iraniano com os talebans se isso envolvesse confronto com um país atômico.

4) A mesma poderosa ambiguidade estratégica se aplicaria no caso de qualquer avanço iraniano sobre um estado árabe sunita vizinho no Golfo Pérsico, como o Bahrein.

5) Nunca se chegará a um acordo na disputa Israel-Palestina. Os palestinos refratários vão ser mais ainda os procuradores de um regime que conclama a eliminação de Israel, e os judeus refratários vão acreditar ainda mais que fazer concessões seja uma perda de tempo.

6) O conceito de “não proliferação nuclear”, tão caro aos bem-pensantes, irá direto para os livros de história, junto com a Liga das Nações.

Esses, então, são alguns dos preços a pagar por não desarmar o Irã. Não é óbvio que o interesse internacional em enfrentar essa questão deva ser muito mais forte que qualquer cálculo político no gabinete de Netanyahu?

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