sábado, 7 de agosto de 2010

Salman Rushdie lamenta radicalismo iraniano na Flip

Isaac Ismar, Portal Terra

Salman Rushdie retorna à Paraty, no sul fluminense, para falar sobre o seu novo romance, Luka e o fogo a vida, na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty. O escritor de dupla cidadania (indiano e britânico) se tornou um súdito britânico e vive na Inglaterra desde os 13 anos de idade. Na carreira de romancista ele coleciona prêmios importantes como Booker Prizer (1981), Booker of bookers (1993) e Best of the Booker (2008).

Nesta sexta-feira (6), ele participou da programação da Flip na mesa Em nome do filho, na Tenda dos Autores. Nascido em Mumbai, na Índia, Rushdie é de uma família mulçumana liberal e rica. Por isso, o autor respondeu a algumas perguntas sobre a delicada questão das interpretações da religião mulçumana. Recentemente, a diplomacia do governo brasileiro ofereceu asilo político, apoiado pelos Estados Unidos, a uma iraniana que foi condenada a apedrejamento pelo governo de Teerã sob acusação de adultério.

"Não conheço os detalhes desse assunto, por isso não posso responder, mas ficaria muito feliz que o Irã conseguisse resolver sem a execução dessa forma. Se o governo brasileiro puder ajudá-la, será excelente", disse Rushdie, que foi informado sobre a sua popularidade no país: "Diante da repercussão desse caso no exterior, o governo iraniano está inventando uma série de desculpas para motivar isso".

Romancista, ele expôs sua opinião a respeito de outros colegas de profissão. Para Rushdie, escrever um livro para crianças, como Haroum, é uma tarefa árdua, pois esse um público tem certas particularidades.

"Como leitor eu não gosto de romance que tenta agradar. Fico irritado com isso. Eu acho que o autor do romance deve trabalhar de maneira mais direta ao criar os personagens que envolvem e empolgam o leitor. Você tem que encontrar uma estória envolvente. É uma maneira de criar o mundo em que o leitor gostaria de viver. Não é fácil fazer isso, mas quando o autor tenta ser direto, fica chato. Certa vez, alguém me perguntou se é mais fácil escrever para crianças e minha resposta foi não. É mais difícil escrever para elas. As crianças são muito inteligentes. E como leitoras, se não gostam de livros, não lêem. A menos que os pais as obriguem. Então, escrever para crianças é uma tarefa árdua. É saudável para o escritor escrever um tipo de literatura que adorava quando era criança", afirmou Rushdie.

Ele defendeu a literatura como veículo que propicia ao leitor viagens a culturas diferentes. "Atualmente há diversas maneiras de se conseguir informações. O que a literatura faz é dar ao leitor um acesso a mundos e experiências de outras culturas. Eu, antes de vir à América Latina, eu achava que entendia alguma coisa da região e quando vi isso de perto percebi o quanto o mundo é mesmo maluco como está nos livros. A literatura pode lhe apresentar isso", comprovou.
Na opinião dele, o escritor tem obrigação de buscar informações do passado e contextualizá-las com os dias atuais, como relata a seguir: "Para mim a estória é sempre uma forma de entendermos o mundo. Para você entender o presente é importante compreender o passado. E como autor é fundamental a dimensão histórica para entender o presente. Para mim, o passado é um 'lugar' onde você encontra essas duas coisas. No caso da medicina, você não quer viver em outra era. Só pensa no presente, porque se vivesse em outros tempos estaria em problemas. Então , vamos viver o presente (risos)".

Sobre a obra infanto-juvenil de sua autoria, Haroum, Salman Rushdie disse que sempre pensou em escrever literatura para que o público infantil se divirta com cultura.

"Cada livro vem de uma maneira diferente. Quando escrevi Haroum eu tinha a estória toda na minha mente. A dificuldade com esse livro foi escrever uma estória para que as crianças tenham prazem em lê-lo", encerrou.

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