domingo, 8 de agosto de 2010

Quem nasce para voar é passarinho

Ferreira Gullar, Folha de S. Paulo

O melhor é ficar em terra mesmo. Morrer é o de menos, pior é o pânico que antecede o desastre

SABEM POR QUE deixei de viajar de avião? Porque não quero me estressar. Vejam bem, viajei de avião durante mais de 50 anos e só parei quando causas estressantes atingiram um ponto, para mim, intolerável.

Na verdade, certa noite, vinha de São Paulo, num voo da ponte aérea, quando, ao nos aproximarmos do Rio, o avião sofreu uma queda brusca que pôs em pânico os passageiros. Foi apenas um susto, mas tamanho susto que, quando pousamos, todos, aliviados, aplaudimos o milagre. E eu, ao atravessar a pista e ver uma fila de infelizes que esperavam para embarcar, dei graças aos céus por não estar entre eles.

Mas, dali a um mês, estava de novo dentro de um avião, na mesma ponte aérea. Mal completamos 15 minutos de voo, o comandante avisou que chovia muito em São Paulo e que Congonhas estava fechado, assim como Guarulhos. De fato, ficamos 40 minutos rodando no ar até que pudemos aterrissar, sob raios e trovões. Desde aquela manhã, prometi nunca mais entrar num avião. E passei a viajar apenas de carro.

Essa opção, se me livra desses estresses, atrapalha-me a vida, impede-me de ir a São Luís, minha cidade natal, e de atender a convites para visitar lugares mais distantes.
Sucedeu, porém, que, há uns três anos, aceitei ir a Madri para atender a um convite tentador. Topei e me arrependi amargamente. De saída, enfrentei um atraso de três horas antes de embarcar e mais uma hora dentro do avião esperando permissão para decolar.
Durante o voo, turbulências intermináveis que não me deixavam dormir. Ao descer em Madri, estava um trapo e me aterrorizava pensar que teria que tomar outro avião para retornar ao Brasil.

Mas houve uma coisa compensadora: conheci o TAV -o trem de alta velocidade-, que me levou de Madri a Sevilha, viagem maravilhosa, com pouco mais de uma hora de duração e nenhum susto. Embarcamos sem ter quer fazer check in e desembarcamos sem ter que esperar a devolução da bagagem.

Num trem desses, faço qualquer viagem, vou até o polo norte. Acredito que, dentro de alguns anos, o avião vai ficar apenas para voos intercontinentais. E o trem, além do mais, não polui, é ecologicamente correto.

Enquanto isso não ocorre, uso o automóvel, que me pega à porta de minha casa e me deixa à porta do hotel em São Paulo ou Belo Horizonte. E me distraio lendo as notícias acerca das encrencas em que se metem os que continuam a viajar de avião.

Não faz muito, li no jornal o artigo de um cidadão que levou 60 horas para ir de São Paulo ao Rio, viagem que dura menos de 40 minutos. É que mergulhou numa tempestade cheia de raios e turbulências que obrigou o piloto a desistir de pousar no Rio e dirigir-se para Belo Horizonte. Ali dormiram e, no dia seguinte, tomaram o rumo do Rio, mas uma nova tempestade o fez retornarem a Belo Horizonte, onde tiveram que dormir de novo para, na manhã seguinte, conseguirem finalmente pousar no Santos Dumont. Muito divertido, não?

Outro caso bem mais recente foi o daquele avião da Air France que teve de pousar em Recife devido ao boato de que havia uma bomba a bordo. Não havia, mas o voo atrasou 24 horas.
Em seguida, outro avião da mesma companhia teve de voltar para o aeroporto Tom Jobim, após duas horas de voo, porque os banheiros haviam entrado em colapso. E, logo depois, um avião com destino a Chicago entrou em zona de tanta turbulência que foi obrigado a pousar onde pôde: dezenas de passageiros, feridos, foram hospitalizados.

Naquela semana mesma, um desastre no Paquistão matou os 175 passageiros. Esta semana, no Brasil, instala-se o caos aéreo.

Esses fatos só fortalecem em mim a convicção de que o melhor é ficar em terra mesmo. Morrer é o de menos, pior é o pânico que antecede ou anuncia o desastre. Há pessoas que se dispõem a enfrentar qualquer situação porque amam voar, e há outras que têm que fazê-lo por necessidade profissional.

Difícil, para mim, é entender aqueles que escolheram ser piloto de avião ou comissário de bordo. Sentem-se tão à vontade voando a 10 mil metros de altura quanto eu na minha sala. Devem pensar que ninguém se vai antes da hora, que quem morre de véspera é peru. Aproveito para lhes desejar, antecipadamente, um feliz Natal.

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