terça-feira, 3 de agosto de 2010

Para estudantes da era da internet, não há vergonha em copiar

Plagiar conteúdos online é algo natural para estudantes da era digital. Pesquisadores tentam entender o fenômeno

The New York Times

Na Faculdade Rhode Island, um calouro copiou e colou informações encontradas na página de perguntas frequentes de um website sobre moradores de rua - e não achou que seria necessário citar a fonte, uma vez que a página não incluía informações sobre seu autor.

Na Universidade DePaul, a margem arroxeada dos parágrafos retirados da internet denunciaram a cópia de um aluno e, quando confrontado por um tutor, ele não se defendeu – apenas quis saber como mudar a margem de roxo para preto. E na Universidade de Maryland, um estudante repreendido por fazer cópias da Wikipédia em um trabalho sobre a Grande Depressão, disse acreditar que as publicações do website – sem assinatura e elaboradas coletivamente – não precisavam ser creditadas, uma vez que contavam, essencialmente, como conhecimento comum.

Os professores costumavam lidar com o plágio advertindo os estudantes a dar crédito a outros autores e a seguir o guia de estilo para fazer citações, e isso era suficiente. Mas esses casos – que são típicos, de acordo com tutores e funcionários responsáveis pela disciplina nas três instituições que descreveram o plágio – sugerem que muitos alunos simplesmente não compreendem que utilizar palavras que não escreveram é um crime grave.

Esta é uma incoerência que está aumentando na era da internet, época em que os conceitos de propriedade intelectual, direitos autorais e originalidade estão sob ataque devido à desenfreada troca de informações online, dizem os educadores que estudam o plágio.

A tecnologia digital torna mais fácil copiar e colar, é claro. Mas isso é o de menos. A internet também pode redefinir o modo como os alunos – que cresceram com o compartilhamento de arquivos de música, a Wikipédia e o uso de links na web – compreendem o conceito de autoria e singularidade de qualquer texto ou imagem.

Os tutores que estudam o plágio tentam não desculpá-lo – muitos são campeões de honestidade acadêmica em seus campi –, mas sim entender porque a prática é tão difundida. Sarah Brookover, sênior no campus da Rutgers, em Camden, Nova Jersey, disse que muitos de seus colegas copiam e colam sem vergonha.

“Essa geração sempre existiu em um mundo no qual a mídia e a propriedade intelectual não têm a mesma importância”, disse Brookover, que aos 31 anos é mais velha que a maioria dos alunos dos cursos de graduação. “Quando você usa o seu computador, usa a mesma máquina na qual baixa arquivos de música muitas vezes ilegalmente, na qual assiste de graça vídeos que passaram na HBO ontem à noite”.

Brookover, que trabalha na biblioteca do campus, já ponderou sobre a diferença entre pesquisar nas estantes e online. "Porque você não está em uma biblioteca, você não está fisicamente segurando o artigo, algo que lhe dá a sensação de que ‘isto não me pertence’”, disse ela. Online, “tudo pode facilmente pertencer a você”.

A antropóloga da Universidade de Notre Dame Susan D. Blum, perturbada pelo alto índice de plágio, passou a estudar como os alunos veem a autoria e a palavra escrita, ou "textos", em linguagem acadêmica.

Ela realizou uma pesquisa etnográfica com 234 alunos dos cursos de graduação da Universidade Notre Dame. “Os estudante de hoje estão em uma encruzilhada formada por uma nova forma de conceber textos e as pessoas que os criaram e aquelas que as citam”, ela escreveu em seu livro “My Word!: Plagiarism and College Culture” (Minha Palavra: Plágio e a Cultura Universitária, em tradução livre).

Blum argumenta que os textos dos estudantes revelam algumas das mesmas qualidades do pastiche que impulsiona outras criações de hoje – programas de TV que constantemente fazem referências a outros programas ou músicas que usam trechos de outras músicas.


Em entrevista, ela disse que a ideia de um autor cujo esforço único cria um trabalho original tem raiz na concepção do indivíduo elaborada durante o Iluminismo. Ela é reforçada pelo conceito ocidental de propriedade intelectual defendida pela lei de direitos autorais. Mas ambas tradições estão sendo questionadas.

“Nossa noção de autoria e originalidade nasceu e floresceu, mas pode estar esvanecendo”, disse Blum.

Ela afirma que os estudantes estão menos interessados em cultivar uma identidade única e autêntica – como estavam na década de 1960 - do que em experimentar muitas personas diferentes, algo que a web permite com suas redes sociais.

* Por Gabriel Trip - Último Segundo

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