quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Não é uma só uma "marolinha verbal"

O mundo, em especial os países vizinhos, não podem ficar indiferentes ante a cumplicidade do governo Chávez com o narcotráfico das FARC, que opera impunemente na Venezuela.

Roberto Fendt - Diário do Comércio

O presidente colombiano Alvaro Uribe denunciou a existência de forças da Farc em território venezuelano, com a compalcência de Chávez.

Manda a boa norma de conduta no relacionamento entre as nações que um chefe de Estado não dê palpites sobre assuntos que dizem respeito apenas a outras nações. Desrespeitar essa norma geralmente produz efeitos desagradáveis. É que se constata após os infelizes comentários do senhor presidente da República sobre a crise em evolução entre a Colômbia e a Venezuela.

Disse o senhor presidente que não via crise de espécie alguma, exceto verbal. Deixou a impressão de que se tratava de pinimba entre Chávez e Uribe. Nada mais distante da realidade. Infelizmente, não estamos diante de uma "marolinha" diplomática. Nem de um capricho de um presidente que vai para casa no próximo dia sete de agosto.

No último dia 22, o embaixador colombiano na Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Alfonso Hoyos, mostrou as provas da agressão venezuelana à Colômbia. Falando perante o Conselho Permanente da Organização, o embaixador Hoyos apresentou os fatos: o conteúdo do computador do comandante Raúl Reyes, apreendido em março em território equatoriano. Junto com os documentos apreendidos, apresentou também fotos de satélite e vídeos que atestam cabalmente que a Venezuela se transformou em santuário para os terroristas narcotraficantes das FARC.

De novidade, somente o conjunto dos documentos apresentados e a surpresa da apresentação. Há anos a Colômbia queixa-se da presença das FARC em território venezuelano. Como queixou-se, repetidamente, dessa mesma presença em território equatoriano. Agora, a Colômbia pretende que a Venezuela permita que uma comissão internacional visite os locais apontados como santuários das FARC. A resposta de Hugo Chávez foi um solene "não" à proposta colombiana apresentada na Unasur.

O acordo proposto incluía cinco pontos – os primeiros três consistindo na criação de uma zona de paz e cooperação na América do Sul; o compromisso de todos os Estados membros de buscar a solução de controvérsias exclusivamente por meios pacíficos, pelo entendimento diplomático e pelo respeito à inviolabilidade dos Estados e ao princípio da não intervenção; e o compromisso dos Estados membros de combater as ameaças provenientes da ação de grupos armados irregulares, ou de organizações criminosas e do narcotráfico. Para esse fim propôs-se a criação de mecanismos eficazes – bilaterais e multilaterais – de cooperação para garantir a segurança e a paz na região.

A esses três pontos, agregaram-se mais dois: rever as propostas dos países membros para assegurar a paz e criar um conselho de chefes de Estado na América do Sul, responsável por colocar em prática as demais recomendações.

A resposta de Chávez à proposta de entendimento não tardou. Na sexta-feira, o presidente venezuelano afirmou estar repassando "planos de guerra" contra a Colômbia, por julgar que Uribe é "capaz de tudo" antes de passar o poder ao sucessor eleito no próximo dia sete de agosto.

A paranoia lhe é conveniente. A economia "bolivariana" da Venezuela está em escombros, por conta do seu desastrado desgoverno. A inflação gira em torno de 30% e não há, como havia no Brasil, nenhum mecanismo de correção de preços e salários.

Nesse contexto, nada melhor que encontrar um bode expiatório externo. Até porque o território venezuelano já está abrigando cerca de 1.500 narcotraficantes das FARC, treinando e descansando dos sequestros e de outros atos de violência praticados contra civis colombianos e venezuelanos.

O que poderia ter feito a Colômbia, se não alertar a comunidade internacional de que está sendo agredida pelo narcotráfico abrigado na Venezuela? O alerta está feito e somente há a lamentar o silêncio dessa mesma comunidade diante da gravidade do fato.

O mundo, e particularmente os países vizinhos, não podem ficar indiferentes diante da cumplicidade do governo de Caracas com o narcotráfico das FARC operando impunemente em solo venezuelano. Foi omissão semelhante diante da continuada agressão aos países vizinhos que criou as condições para a Segunda Guerra Mundial.

Pior ainda foi a reação brasileira, que procurou ridicularizar as denúncias colombianas. Mais uma vez, o nosso ministério de Relações Exteriores expôs o presidente e o Brasil a uma situação desconfortável. Seja porque omitiu-se e não esclareceu o senhor presidente da República sobre a gravidade da denúncia do governo colombiano e dos riscos para o nosso próprio país da existência de santuários das FARC na Venezuela; seja porque não emitiu uma nota apoiando a formação de uma comissão internacional para apurar essas mesmas denúncias em território venezuelano.

Roberto Fendt é economista

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