sábado, 7 de agosto de 2010

Misticismo e literatura: O fascínio da ideia do deus-bruxo

Num panorama que percorre três séculos de poesia, Claudio Willer mapeia a influência do gnosticismo sobre a criação literária de William Blake a Hilda Hilst

É comum atribuir aos poetas, e aos escritores de modo geral, uma sorte de capacidade ou lucidez de conhecer aspectos da alma humana e do modo de relacionar-se das pessoas. No campo da psiquê, Freud e Lacan já mostraram como os escritores anteciparam-se à psicanálise; a tal ponto que a tragédia de Sófocles está na base do pensamento freudiano. Também há um flerte entre o universo mágico e o da poesia, que se manifesta dos mais diversos modos: da literatura que sugere o maravilhoso àquela que se confunde com um texto sagrado, todas ajudam a compor a imagem do poeta-bruxo.

Esse fascínio do universo mágico sobre a literatura estão na raiz do novo livro do poeta e crítico Claudio Willer, fruto de sua tese de doutoramento. Já o título, Um Obscuro Encanto, faz menção a tal fascínio ao citar uma passagem do escritor Jorge Luis Borges que, num prefácio a Quevedo, se refere à existência de doutrinas, “provavelmente falsas, que exercem um obscuro encanto sobre a imaginação dos homens”. Entre elas, cita o gnosticismo, segundo a qual “o mundo é obra de um deus hostil ou rudimentar”, o Demiurgo. Se Borges costumou ser ambíguo em relação ao gnosticismo, uma dessas doutrinas “provavelmente falsas”, Willer ousa ir além e diz que “então poderiam ser verdadeiras”.

O livro de Willer explora, com fôlego, como a gnose e o gnosticismo incidiram sobre uma longa tradição literária que parte de Blake e prossegue por Novalis, Goethe, Victor Hugo, Nerval, Baudelaire, Rimbaud, os simbolistas, Lautréamont, os surrealistas e Fernando Pessoa, até desembocar na brasileira Hilda Hilst. A primeira parte do volume explora o que se conhece sobre gnose e gnosticismo – essa forma de conhecimento total que levaria o homem a se libertar do reino da necessidade e que seria “matriz de misticismos na tradição ocidental”. A partir daí confronta o gnosticismo com religião, satanismo, astrologia, hermetismo, antropologia e psicologia, de modo a situar as especificidades desse sistema de conhecimento que, segundo o autor, por ser tão “sincrético, heterodoxo e móvel” reaparece, ao longo de séculos, nos lugares mais diversos.

Na segunda parte do livro, pequenos capítulos são dedicados a cada um dos poetas citados e, a partir deles, cada qual é relido a partir dos postulados gnósticos. É quando o vigor de leitor de Willer se apresenta, e seu método crítico se mostra produtivo. O autor transita entre conhecimento esotérico e poesia, sem perder a especificidade dos autores tratados e tampouco a discussão proposta na parte primeira. Quem se interessa pela gnose certamente terá uma visão histórico-crítica mais consolidada após a travessia do livro; quem se debruçou sobre a obra pelos poetas tratados sai dela com uma série de boas perguntas que convidam à releitura de sua poesia e com a possibilidade de repensar a criação literária pela chave da gnose e pela contraposição entre as obras analisadas.

Finalmente, há um capítulo de encerramento sobre as incidências gnósticas nos poetas brasileiros, dos simbolistas a Hilda Hilst. Além do resgate de autores pouco lidos, como o precursor Dario Veloso, o ponto mais interessante é uma rediscussão acerca dos paradigmas literários estabelecidos no Brasil: Willer pergunta-se sobre as causas da obliteração da poesia simbolista no Brasil, tanto pelos parnasianos quanto pela posterior geração modernista, que (re)leu Rimbaud e Mallarmé, mas não por uma via não-esotérica. De forma que o fato de o livro encerrar-se com a discussão sobre a obra de Hilda Hilst já é, por si só, uma marca da produtividade da reorganização proposta pelo autor.

A natureza das teses acadêmicas traz um quê de paranoia dirigida, uma reconfiguração dos mapas consagrados no sentido de acumular indícios que deverão convergir na direção proposta por seu autor. Nesse sentido, a investigação de rastros gnósticos por uma longa tradição da cultura ocidental poderia surpreender algum leitor, pois ver tais traços em tantos autores certamente surpreende. Por exemplo, a certa altura, Willer associa – sob a forma de pergunta – o eu cindido da psicanálise lacaniana à duplicidade gnóstica das almas, a partir da citação que o psicanalista francês faz da célebre frase de Rimbaud: “Os poetas, que não sabem o que dizem, como é bem sabido, sempre dizem, no entanto, as coisas antes dos outros – ‘[eu] é um outro’ (Lacan, Seminário 2)”. Pode-se, a partir do livro de Willer, supor uma longa tradição de poetas gnósticos, ou seria também possível pensar que a poesia tende à gnose – entendida como conhecimento ou verdade? Por tal leitura, o que estaria amparando o esforço comparativo de Willer seria a busca pela verdade presente na produção poética.

O fato é que os bruxos trazidos por Willer compõem uma trama produtiva. Numa palavra, uma paranoia bem dirigida, ou um encanto obscuro que produz prodígios. Pois, no limite, a escrita de Willer é a do poeta que, a sua maneira, sofreu o obscuro encanto do gnosticismo, mas que antes teve a incidência do não menos obscuro encanto da poesia, e os articulou a ambos num trabalho acadêmico que não cede ao peso da escrita acadêmica, mas sim ao seu rigor.

Uma última nota. Dada a multiplicidade de temas e escritores tratados, o leitor sente falta – na ainda assim bem cuidada edição da Civilização Brasileira – de um índice onomástico que permitisse tomar o livro também por seu valor de obra de referência para aprofundamento de estudos nos múltiplos campos, pois o autor é generoso em citações, notas e sugestões.

Professor do Departamento de Letras da UFSCar, tradutor e autor de Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/Fapesp)

Por Wilson Alves-Bezerra - Zero Hora

UM OBSCURO ENCANTO: GNOSE, GNOSTICISMO E A POESIA MODERNA
De Claudio Willer
Civilização Brasileira,
462 páginas, R$ 59,90

2 comentários:

Edson Bueno de Camargo disse...

Muito bom.

Mais de Cláudio Willer:

http://inventariodn.blogspot.com/2010/08/papo-de-poeta-entre-claudio-willer-e.html

Coletivo Paradoxo disse...

Mais (ainda) de Claudio Willer, sobre o seu lançamento e curiosidades:

http://poenocine.blogspot.com/2010/08/lancamento-do-livro-um-obscuro-encanto.html

Aquele abraço,
Paulo.