segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Brasil salomônico

Não me refiro à justa medida que, em seu final de mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mediante o que o vulgo chama de "pacotão", criou mais de 700 cargos numa cortesia de e para o Ministério da Defesa. São os pilares da propalada Estratégia Nacional de Defesa.

Um país, principalmente em vertiginosa ascendência como o Brasil, precisa se defender. Nunca se sabe o que andam tramando por aí nossos inimigos e, quem sabe, talvez até mesmo nossos amigos. A globalização é uma briga de foice. Parafraseando um outro presidente, Washington Luís, também barbudo e igualmente sábio, "governar é criar cargos".

Não, não me refiro ao fato universalmente aplaudido do Oiapoque ao Chuí.

Quando falo em Brasil Salomônico, também não estou querendo adentrar a espinhosa questão de nosso TSE ter proibido (e a decisão legal é mais velha do que pensam) o humor nos meios de comunicação no período que antecede as eleições gerais em nosso divertido e sacudido território nacional.

Absolutamente. Brincadeira tem hora. O TSE sabe o que faz. Daí seu nome e sigla. Eleição é coisa séria e não coisa para qualquer um chegar e ficar se rindo ou debochando de candidato ou deste ou daquele outro fato ligado ao sagrado cumprimento do dever cívico.

Parafraseando de novo (o homem era um prato feito para a paráfrase) Washington Luís, "votar é coisa séria e não palhaçada para qualquer vagabundo fazer troça".

Não, não me refiro à sábia decisão do TSE. Refiro-me, especificamente, ao próprio Salomão. Aquele da Bíblia. O que manjava de justiça às pampas. Vocês sabem. O que mandou cortar ao meio uma criança para testar o amor maternal. Salomão, que foi também o dos Cantares, que, menino, vou te contar.

Mas deixa isso pra lá. Esses cantares não vêm ao caso em pauta nestas linhas. Salomão, o bíblico Salomão, vai ganhar um tremendo de um templo no Brasil. A notícia pegou quase tanto espaço na imprensa mundial quanto à fuzilaria no hotel de cinco estrelas em São Conrado.

Impossível que todos os bons brasileiros não saibam e não estejam de peito insuflado, bandeiras desfraldadas, hino nacional a plenos pulmões.

São Paulo, não bastasse a Igreja de Aparecida, um fenômeno globalmente estudado, vai ganhar um Templo de Salomão. E que templo, meus senhores! Vai ser uma réplica a mais fiel possível do templo original e deverá custar perto de 200 milhões de dólares.

Um presentaço da Igreja Pentecostal. Uma verdadeira "mega-igreja" com capacidade para 10 mil fiéis (os infiéis são igualmente bem-vindos), que nasceu da fervilhante criatividade que já nos acostumamos a associar à Igreja do Reino de Deus, cujo líder e fundador, o douto e popular bispo Edir Macedo, em entrevista para a televisão, e também em seu blog, gabou-se, mui justamente, de que "o Templo de Salomão original empregou toneladas e toneladas de ouro puro... Nós não vamos construir um templo de ouro, mas gastaremos, isso sim, toneladas e toneladas de dinheiro."

O bispo Edir Macedo acrescentou que a sagrada organização que ele fundou e lidera já assinou com Israel um contrato no valor de 8 milhões de dólares para importar pedras do intrépido país do Oriente Médio. Virão todas de Jerusalém, a mesma santa cidade que serviu de origem para as pedras ao templo original que, há 2 mil anos, foram testemunhas da força e do poder da fé.

O Templo de Salomão brasileiro terá 55 metros de altura, ou seja, duas vezes a altura da estátua do Cristo Redentor, informou o blog do bispo Edir Macedo. O arquiteto responsável pela obra chama-se Rogério Silva de Araújo, louvado seja, e o projeto inclui, justificando o salomônico do esquema, um parque de estacionamento para mil veículos (motocicletas, bicicletas e carrinhos de mão inclusive), estúdios de rádio e televisão e salas de aula prontas para comportar e fazer com que se comportem 1.300 crianças.

Como estamos cansados de saber, a Igreja Universal do Reino de Deus foi fundada em 1977 e, segundo ela própria, conta com 8 milhões de seguidores. A Igreja Universal adota o que chama de "teologia da prosperidade", doutrina religiosa mediante a qual atos de fé, tais como doações, são recompensados com riquezas materiais.

Salomão, o que queria, por sabedoria, cortar em duas uma criança, afim de testar o amor materno, não poderia ter tomado uma providência mais... mais salomônica, né?

Fonte: O Globo / BBC

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