terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ahmadinejad: as loucuras do “presidente do apocalipse”

O caso de Sakineh Mohamadi Ashtiani, condenada à morte no Irã por adultério, é só mais uma das inúmeras provas da tirania do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Combinação de fanático religioso e populista, ele costuma chocar o mundo com suas ameaças verbais e demonstrações de força. Alguns dos principais alvos de sua retórica agressiva são Israel e os Estados Unidos.

Recentemente, Ahmadinejad chegou a dizer que prevê uma ação militar americana contra “pelo menos dois países” do Oriente Médio nos próximos meses. As relações entre seu governo e a Casa Branca são marcadas por momentos de tensão, sobretudo pela insistência de Ahmadinejad dar sequência ao programa nuclear iraniano. O Irã também provoca os Estados Unidos fornecendo armas e explosivos para ser usados contra as tropas americanas no Iraque. Por fim, confronta as Nações Unidas, que querem que Teerã permita a inspeção internacional em suas instalações nucleares e suspenda o enriquecimento de urânio, material que pode ser usado numa arma nuclear.

Durante dezoito anos, os aiatolás mantiveram em segredo suas atividades nucleares, até ser denunciados por dissidentes em 2002. O Irã sustenta que seus esforços são modestos e pacíficos. Oficialmente, o urânio será enriquecido a apenas 20%, potência suficiente para acionar usinas geradoras de energia elétrica, mas bem abaixo dos 90% exigidos para armar uma bomba. O problema é que a tecnologia empregada em ambos os casos é a mesma. A ideia de colocar tecnologia nuclear nas mãos de Ahmadinejad é assustadora. Israel, que por motivos óbvios considera a bomba iraniana uma ameaça vital, pode desfechar um ataque preventivo, de alcance arrepiante para o mundo todo.

Eleito em 2005 com o voto dos miseráveis da periferia das cidades iranianas, Ahmadinejad prega a destruição de Israel. Seu estoque de impropérios inclui até mesmo a negação do holocausto na II Guerra. À época de sua eleição, uma anedota chegou a correr o Irã: a única diferença entre Ahmadinejad e os aiatolás que zelam pela rigidez do regime islâmico é o turbante. Como não é clérigo, Ahmadinejad está dispensado do pano preto enrolado na cabeça.

O presidente do apocalipse chegou até mesmo a proibir o uso de palavras estrangeiras em seu país. Com isso, o malucão quer proteger o farsi, a língua local, de estrangeirismos. Ele criou até uma lista para substituir as palavras estrangeiras. Pizza, por exemplo, deve ser substituída por “massa elástica”. Helicóptero são “asas voadoras”. A sugestão em farsi para fax é “escrita a distância”. Até o chat de internet entrou na dança – e virou “conversa breve”.

Até na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, Ahmadinejad foi motivo de dor de cabeça. A simples notícia de que o iraniano pretendia assistir aos jogos de sua seleção aumentou ainda mais a preocupação com a segurança no país europeu — não só porque o Irã persegue a tecnologia para fazer a bomba atômica, mas porque declarações como as que Ahmadinejad costuma fazer, negando o holocausto dos judeus, são motivo de prisão na Alemanha.

Em 2009, Ahmadinejad fraudou pateticamente as eleições iranianas para reeleger-se. Sua vitória forçadas nas urnas levantou uma onda de protestos populares no país. Dez jovens morreram pelas mãos da polícia nas manifestações. O que fez, então, o presidente? Proibiu as homenagens aos mortos, é claro. Desta vez, porém, os iranianos não se renderam à sua loucura. Pelas ruas eternamente poeirentas, mães, familiares e centenas de oposicionistas aproximaram-se do cemitério. Levavam rosas, tão simbólicas na cultura persa. E fotos dos mortos e faixas verdes, a cor do Islã cooptada pelo movimento espontâneo de repúdio aos poderes atuais. Do outro lado, a polícia os esperava armada com o arsenal habitual – cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo, capacetes e escudos.

O Irã é uma teocracia que pretende reproduzir as condições existentes nos primórdios do islamismo. São os aiatolás mais graduados que fiscalizam a pureza do regime e exercem a instância máxima do poder. Isso não impede, porém, que haja lutas por poder no país – e delas podem resultar governos mais inclinados a uma negociação com o Ocidente. Parece que a democracia não está prestes a florescer no país dos aiatolás, mas é possível sonhar com lideranças menos radicais que a de Ahmadinejad. Ainda que envoltas na túnica e no turbante.

Em VEJA de 2/11/2005: O profeta do genocídio

Em VEJA de 18/1/2006: O louco da bomba

Em VEJA de 19/4/2006: A polícia está pronta para o jogo

Em VEJA de 19/4/2006: O perigo do aiatolá atômico

Em VEJA de 9/8/2006: Irã, o paraíso lingüístico de Aldo Rebelo?

Em 14/2/2007: Uma nação incendiária

Em VEJA de 28/2/2007: A ameaça nuclear dos aiatolás

Em VEJA de 17/6/2009: Irã, mostre a sua cara

Em VEJA de 5/8/2009: As rosas de Teerã

Em VEJA de 17/2/2010: O ataque das formigas atômicas

Fonte: Veja

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