sexta-feira, 23 de julho de 2010

O uso frequente da rede de computadores pode desligar o usuário do mundo real

Carolina Vicentin

O tempo em que os pais se esgoelavam para fazer com que os filhos não ficassem na rua até tarde da noite já passou. Por incrível que pareça, hoje, o principal desafio de mães e pais é tirar as crianças de casa. “Se deixar, ele fica em frente ao computador o dia inteiro, não vai brincar, não para nem na hora das refeições”, conta a economista Isabella Pimenta, 30 anos, mãe de Diego, 9. O menino faz parte de uma geração de crianças que, literalmente, nasceu com o computador na sala de parto. Especialistas alertam que o uso abusivo da web pode atrapalhar o desenvolvimento dos jovens e fazer com que eles não se preparem para viver a vida real.

O sinal amarelo deve acender quando a criança passa muito tempo livre conectada. “Mas o tempo em si pode ser uma referência relativa. Vamos supor que o menino fique três horas por dia no computador. Se nesse período ele usa o messenger, faz pesquisa para a escola, baixa uma música, isso não é negativo. Ele está fazendo um uso amplo da ferramenta, acrescentando coisas para a vida dele”, afirma a psicóloga Rosa Maria Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ela explica que o uso das máquinas para o mesmo fim merece um alerta dos pais.

Se a criança usa o computador só para conversas instantâneas ou para jogar games on-line, pode começar a preferir o canal virtual a qualquer outra coisa. “Não são os conteúdos disponíveis que mais ‘viciam’, mas sim o propósito que a pessoa tem na internet. Se está sempre buscando alguém para se relacionar apenas no mundo virtual, pode perder a capacidade de lidar com eventos do cotidiano”, diz Cristiano Nabuco, coordenador do grupo Dependência de Internet, que funciona no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Há dois anos, o hospital atende pessoas viciadas(1) na rede mundial de computadores. Eles se reúnem uma vez por semana com especialistas para fazer o tratamento em grupo. “No começo, achamos que essas pessoas teriam um grande interesse em material on-line de sexo. Mas observamos que o interesse nisso é bem menor se comparado ao foco nas redes sociais”, destaca Cristiano. Para meninos e meninas, esse tipo de situação é ainda mais prejudicial. “Relações sociais mantidas somente por essas redes fazem com que os adolescentes fiquem cada vez mais refugiados, perdendo habilidades que só são desenvolvidas no dia a dia”, ressalta o psicólogo. O excesso de mundo virtual impede que a pessoa ganhe a capacidade de criar espaços de manobra em uma conversa, ou, até mesmo, perceba situações de perigo. “O usuário da internet tem o controle total da situação, é só apertar uma tecla e fechar a janela. Essa sensação de poder acaba virando um desserviço para a formação dos jovens” aponta Cristiano.

Sob controle
Mas computadores e videogames não são vilãos. O problema, afirmam os especialistas, é a forma como as crianças utilizam os recursos eletrônicos. “Toda vez que surge uma nova tecnologia, aparecem os mensageiros da desgraça dizendo que a novidade vai fazer mal. Foi assim com o carro, com o telefone, com o videogame, com o computador. Essas coisas vieram para ficar. As crianças estão apenas utilizando um recurso que está à disposição delas desde que nasceram”, lembra o neuropediatra José Salomão Schwartzman, um dos maiores nomes do país em neurologia da infância e da adolescência.

Schwartzman afirma que há jogos para o desenvolvimento de jovens. Crianças com deficit de atenção podem usar os games para aprender a se focar em uma única atividade. “Alguns jogos são feitos para crianças. Eu até prescrevo para os meus pacientes”, diz o especialista. O neuropediatra ressalta que é essencial aos pais saberem exatamente o que os filhos estão fazendo na frente do computador e do videogame e falar abertamente sobre os riscos do ambiente virtual.

A economista Isabella Pimenta procura orientar o filho Diego quanto às possibilidades que surgem na internet. “Como trabalho o dia inteiro, eu mais confio nele do que controlo o acesso. Eu já conversei demais sobre os perigos da rede”, conta Isabella.

1 - Fuga do tratamento
No mês passado, jovens chineses fugiram de um reformatório para viciados em internet. O grupo amarrou o instrutor da instituição, que funciona com práticas militares, para não precisar participar do treinamento intensivo. A polícia prendeu 14 deles e 13 voltaram para o reformatório.

Navegar é preciso, mas nem tanto

A “fiscalização” também é adotada pelo analista de sistemas Antônio Barros Dantas, 39 anos, com a filha Maria Eduarda, de 8. A menina começou a usar o computador por causa de trabalhos da escola há cerca de seis meses. Maria Eduarda tem um e-mail e troca correspondências com os colegas, sempre com supervisão do pai.

“O controle dos sites que ela visita é feito por uma ferramenta gratuita da própria internet. Também tenho a senha do e-mail e, se não tivesse, dava um jeito de descobrir”, brinca Antônio. A menina só pode usar a máquina para lazer uma vez por semana, na sexta-feira à noite ou no sábado pela manhã, quando o pai ou a mãe estão em casa.

Antônio tem facilidade de ficar de olho no que a filha faz em frente ao PC por conta da profissão. Mas todos os pais devem buscar informações sobre o funcionamento da rede. “Isso é difícil para algumas famílias, porque demanda tempo e diálogo. Não é o computador que causa isolamento e solidão, mas a falta de acompanhamento”, ressalta a psicóloga Maria Rosa Farah.

O neuropediatra José Salomão Schwartzman lembra que a “condenação” dos eletrônicos é uma fuga. “Se eu deixo o meu filho só no PC porque não tenho tempo para estar com ele, o que faz mal não é o aparelho, mas a falta do pai, certo?”, questiona.

Entre as características que marcam o perfil do viciado em internet, destacam-se o excesso de preocupação por estar distante do computador, pensamento fixo em jogos ou em conversas virtuais, desligamento do cotidiano, a ocorrência de sonhos com as máquinas. O usuário que utiliza em excesso a rede corre o risco de ter lesões por esforço repetitivo (LER), tendência à introspecção e prejuízos à vida social e profissional, advertem os especialistas.

Fonte: Correio Braziliense

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