quarta-feira, 23 de junho de 2010

Só uma olhadinha no site erótico. E a empresa perde milhões de dólares

Idgnow

Conteúdo adulto, redes sociais e eventos como a Copa do Mundo desafiam empresas a acompanhar de perto o uso da web e a produtividade pessoal.

Quanto tempo passou no Facebook hoje? Alguns minutos, meia hora, mais?

Na verdade, não importa. As visitas para ver meia dúzia de fotografias ou para relatar o longo final de semana pertencem à mesma categoria: não-laboral.

Segundo levantamento realizado pela companhia de pesquisas digitais Nucleus Research, com sedes em Boston (EUA) e em Israel, 77% dos funcionários com conta no Facebook acessam-na durante o expediente.

Acompanhar eventos esportivos, participar de jogos online e visitar sites de entretenimento – muitas vezes de gosto duvidoso – fazem parte da lista de atividades não-laborais funcionando a pleno vapor dentro das corporações.

Apesar de não ser algo exatamente novo, junto com a era web 2.0 surgem nuances que demandam pelo repensar das políticas de uso da internet no trabalho.

Estudos revelam um alto volume de uso da Internet para fins pessoais. A IDC Research, voltada para o levantamento de dados sobre o uso da Internet, afirma que, por até 40% do tempo em que estão navegando, as pessoas tratam de assuntos não relacionados ao trabalho.

Política realista
Para o diretor de TI da rede de restaurantes Bertucci´s, Kevin Quinlan, isso não é novidade alguma. Ele pertence ao grupo dos realistas. Quinlan desenvolveu uma política de uso da web que permite aos empregados uma cota de 15 minutos por dia de uso da rede para acesso a sites pessoais, incluídos aí o Twitter e o Facebook ou outros serviços (mantidos os limites do razoável).
Quinlan afirma que “as pessoas devem ter o direito de acessar o que quiserem em suas horas vagas”. “Vir para o escritório não deve ser encarado como algo ruim”, diz, e emenda: “Não vou estabelecer regras que eu mesmo não possa seguir”.

O que acontece é que Quinlan, junto com outros gerentes de TI, acompanha o aumento de jovens profissionais que demandam por acesso a sites de conteúdo variado e mudam o paradigma do uso aceitável da web no lugar de trabalho. A empresa de segurança cibernética Clearswift descobriu que 79% dos funcionários de empresas com conexão à web no trabalho gostariam de poder gerenciar seu tempo e de usar a web como achar melhor.

Muitos dos entrevistados afirmaram riscar da lista de possíveis empregadores aqueles com restrições de uso do Facebook.

Questão de segurança
As implicações para os empregadores são muitas. Variam de índices de produtividade até questões de segurança da rede interna e das máquinas.

Quinlan notou a presenças dessas questões há alguns anos, ao se deparar com funcionários instalando o software iTunes para usar com o iPod Touch sem o consetimento do CIO. Na perspectiva de Quinlan, isso não era algo danoso, de má fé. Mas a mania começou a influenciar o andamento da rede.

“Tive problemas com usuários externos tentando fazer login. Ao ir atrás do que poderia estar acontecendo, descobri que o iTunes rodava um software que , a cada 15 minutos, derrubava nossa VPN”, diz o executivo.

Disposto a sanar esse inconveniente, Quinlan optou pela instalação do programa Parity Suite da empresa Bit9. Com esse aplicativo, qualquer software não autorizado ou que tente executar serviços suspeitos fica impossibilitado de funcionar, sem influenciar demais no acesso da web por parte dos usuários.

“Ao contratar novos funcionários os instruímos sobre as políticas internas”, afirma.

Trabalho e Copa do Mundo
O pontapé inicial da Copa do Mundo, em 11/6, fez muitos gerentes de TI ao redor do mundo esquentar as cabeças com a queda na produtividade dos funcionários. Na Inglaterra, país com muito mais torcedores de futebol que os EUA, o prejuízo com o ócio decorrente do acompanhamento dos jogos na África do Sul é estimado em 1,45 bilhão de dólares. Quem aponta para esse número é o Chatered Management Institute, da Inglaterra.

O mesmo drama se desenrola nos EUA. Sempre que chega o mês de março, a NCAA (National Collegiate Athletic Association – Associação Atlética Universitária Nacional, em tradução livre do inglês) dá início a uma verdadeira febre nas empresas com os funcionários formando os conhecidos bolões e acompanhando os resultados das partidas a partir dos desktops.

De acordo com a empresa de recursos humanos Challenger, Gray and Christmas, sediada em Chicago, os funcionários passam até 20 minutos do expediente por dia em pesquisas sobre equipes esportivas, em conversas com os colegas, e assistindo às partidas via web.

Mas não são os jogos que preocupam o diretor de TI da ONG Hanley Center, Michael Counes. Voltada à recuperação de dependentes químicos, a organização mantém registros confidenciais dos pacientes. As redes sociais são o grande consumidor de tempo dos funcionários, mas até então Counes resiste à idéia de restringir o acesso aos sites.

“Não queremos separar os usuários das redes sociais, mas também achamos inconveniente que passem mais tempo nesses serviços que resolvendo as tarefas”, diz. Para Counes, o uso apropriado desses sites é nas horas vagas. Ele acha difícil conciliar uma boa produtividade ao uso intenso do Facebook.

Michael não bloqueia o acesso aos sites de relacionamento. No lugar disso, optou pela instalação de um software de monitoramento chamado Spector360, fornecido pela SpectorSoft. O Aplicativo realiza várias tarefas. É configurável para o keylogging e apresenta relatório de uso da web por parte dos funcionários. O CIO afirma ter percebido um aumento de 15% a 17% na produtividade depois que os empregados souberam do monitoramento.

“Basta anunciar o monitoramento para cinco funcionários”, afirma Counes. “A novidade se espalha feito um vírus e logo, logo, as pessoas entendem que a empresa fala sério quando menciona monitorar o uso da web”, diz.

Mas as atividades extralaborais não se resumem a acompanhar os jogos online. O que fazer quando as pessoas podem deixar de usar o desktop e passam a acompanhar os resultados a partir dos smartphones?

Sites “para eles”
Visitar sites com conteúdo pornográfico no trabalho não é aceitável. Ponto pacífico. Mas, apesar de monitoramento ostensivo, o acesso a sites dessa natureza ainda é bastante comum.

Em uma pesquisa realizada em março pela Nielsen, foi descoberto que aproximadamente 30% dos funcionários acessaram sites adultos durante o expediente. O levantamento também afirma que aproximadamente 20 milhões de internautas norte-americanos entraram em páginas pornográficas pelo menos oito vezes ao mês.

Em um relatório emitido pelo governo dos EUA, muitos funcionários das comissões de Segurança e de Câmbio são apontados como visitantes de sites de pornografia; esses acessos aumentaram com a chegada da crise financeira. Um integrante sênior do departamento jurídico da comissão de Segurança e de Câmbio chegou a passar mais de oito horas por dia logado em servidores de páginas de pornografia.

Michael Counes se declarou ciente dessa realidade e resolveu tomar medidas.

“Sempre tem um funcionário descrente, alguém que não acredita que o monitoramento é realmente possível. Nesses casos é necessário tomar atitudes punitivas. Mas esses casos são exceção”, diz.

Apropriados para o trabalho
Nem sempre os sites exibem conteúdo explícito. Há páginas como Maxim.com, de conteúdo erótico, não pornográfico. De qualquer maneira, as imagens na página chamam atenção de quem passa pela estação de trabalho e vê mulheres de seios fartos em poses provocativas e com pouca roupa.

O site da revista Playboy está em fase de lançamento de uma página “apropriada” para o trabalho, chamada TheSmokingJacket.com.

Na perspectiva de Counes, a maioria dos gerentes concorda que mesmo esses sites devem ser relegados para o acesso doméstico, por não corroborar com a visão da empresa.

Uma série de outros sites e serviços tende a ferir direitos autorias, como é o caso do YouTube. O novo vídeo da Lady Gaga pode não ser ofensivo para uns, ao passo em que choca a outros. Algumas peças da cantora Beyonce ou de Miley Cyrus também entram nessa relação.

Com o advento dos encurtadores de URL, como migre.es e o bit.ly, alguns funcionários podem ser levados para sites pornográficos sem saber disso. Normalmente disfarçados em tweets inocentes, a surpresa só é evidenciada quando o inadvertido internauta clica no link. Em sites como o Digg, algumas dicas de marcar esses links com o termo NSFW (Not safe e for work – não apropriado para o trabalho – em tradução livre do inglês) são sugeridas. Mesmo assim, a adesão a regras dessa natureza costuma ser baixa.

“Nós tratamos cada caso de maneira isolada. Dessa maneira nossas medidas são didáticas”, diz Counes.

Counes parte do princípio de que os usuários não agem de má fé. Ele atribui a maioria dos acessos faltosos à ignorância do usuário, ou melhor, à falta de conhecimento. Sobre o monitoramento, Counes diz: “Acho mais uma ferramenta educativa do que um Big Brother, exatamente”.

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