sexta-feira, 11 de junho de 2010

Proibição de manifestações religiosas na Copa não pode ser derrubada

Eliane Maria

Kaká que ponha as suas novas chuteiras de molho. No que depender do poder do regulamento da Fifa para a Copa do Mundo, não haverá pressão de evangélicos, polêmica ou tribunal que o ajude a manifestar sua fé nos gramados da África do Sul. De acordo com o advogado Marcos Motta, especialista em direito internacional desportivo, a entidade — que proibiu a exibição de mensagens religiosas pelos jogadores durante as partidas — tem competência para criar as regras de suas competições e, contra elas, não cabem recursos.

— A Regra do Jogo é competência do comitê executivo da Fifa e só ele pode alterá-la. A entidade é soberana com relação às regras e, contra elas, não cabem apelações em qualquer tribunal — explica o advogado.

O meia da seleção terá que repensar se exibe a citação religiosa em suas chuteiras — personalizadas com a frase “Jesus em primeiro lugar” a pedido do craque, segundo o patrocinador — para não prejudicar o grupo. Embora o diretor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva, afirme que a peça é de responsabilidade de cada jogador, descumprir a regra levaria a uma punição coletiva.

— O membro direto da Fifa não é o jogador, e sim a CBF, que pode receber punição ou sanção pecuniária, de acordo com a postura do comitê — diz Marcos Motta.

Diretor do departamento educacional e de divulgação da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio, Sami Isbelle discorda da restrição:

— Percebemos que na Europa tentam barrar a visibilidade dos muçulmanos. Não sei se isso pode estar por trás dessa medida.

Fonte: Extra Online


Sobre a proibição de manifestações religiosas na Copa

Não sou dos que veem conspiração em tudo, mas, no caso específico da proibição de manifestações religiosas ou ideológicas no campo de futebol, noto a entronização de um ideal secularizante. Desde o iluminismo europeu, desenvolve-se uma ideia, hoje predominante, de que o homem não precisa de fé para viver, porque fé é vista como “atraso”, que não pode conviver com o “avanço”. Entremos num shopping center: nele não há qualquer materialização da simbologia religiosa, exceto o consumo, eleito como o culto supremo de todos.

Acontece que os jogadores que estão em campo, sejam eles muçulmanos ou cristãos (para ficarmos com duas vertentes), encontram na sua religião uma motivação para sua vida. Aquilo é um esporte, mas eles não vivem o esporte fora de sua fé. É por isto que os jogadores crentes agradecem a Deus pela defesa feita ou pelo gol marcado ou pelo título conquistado, porque para eles tudo que lhes acontece tem a mão de Deus, que lhes deu a vida, que lhes dá habilidade para jogar e que, sobretudo, lhes dá um sentido para viver. Crer faz parte do seu ser. Suprimir-lhe o direito de agradecer a Deus é tirar-lhe o direito de viver.

Como cristão, não me ofendo se um jogador muçulmano, por exemplo, estampa na camiseta interna uma frase de gratidão a Alá. Como cristão, eu me alegro que um atleta cristão, após um gol, levante o seu dedo para os céus para dizer a quem deve o seu tento. Não vejo que mal possa fazer o fato de alguns jogadores cristãos se reunirem ao final de uma partida importante e se darem as mãos para cantar e orar. Quem não quiser ver pode trocar de canal ou a própria rede de televisão pode mostrar outra imagem.

A liberdade de expressão tem que incluir o direito de todos se manifestarem no espaço em que atuam, desde que respeitem a credulidade ou a incredulidade dos outros. A minoria dos que não creem não pode se sobrepujar à maioria dos que creem. Religião e futebol têm muito em comum, porque ambos são o território por excelência da alegria, da alegria simples, da alegria interior que não precisa de droga (álcool, tabaco e alucinógeno) para existir e se irradiar como um facho de luz.


Israel Belo de Azevedo
Doutor em Filosofia e pastor da Igreja Batista Itacuruçá, na Tijuca.

Fonte: Extra - Religião & Fé

Nenhum comentário: