terça-feira, 8 de junho de 2010

Israel ante o poder global

Olavo de Carvalho, no Diário do Comércio

Soldado israelense ferido durante a invasão ao navio que transportava ativistas pró-palestinos: ação militar gerou polêmica e uma forte reação contra o governo de Israel.O episódio do navio turco em Israel resume-se em dois termos: "factoide" e "guerra assimétrica". Seria a marinha turca tão despreparada, tão ingênua, tão pueril ao ponto de ignorar que nenhum governo do mundo jamais deixaria um navio estrangeiro desembarcar toneladas de caixas numa zona em conflito sem examiná-las primeiro? Sobretudo depois que os mediadores israelenses foram recebidos a socos e pontapés, por que deveria o governo de Tel-Aviv aceitar a priori a hipótese de que o conteúdo das caixas fosse algo de tão inocente quanto bolinhos de bacalhau ou picolés de abóbora?

É com base nesta hipótese maluca, teatral, fingida até o último limite de desespero, que a tal "opinião pública mundial" se desfaz em lágrimas de cólera contra a ação israelense.

O significado do caso vai, no entanto, muito além do de mais uma encenação patética de autovitimização palestina. Muitos estudiosos do poder global, inclusive alguns bem honestos, asseguram que o establishment bancário europeu e anglo-americano tem no Estado de Israel um dos seus principais instrumentos de ação imperialista para a conquista do poder sobre todo o orbe planetário.

A hipótese parece razoável à primeira vista, tendo-se em conta a elevada presença de judeus nos altos círculos do globalismo, mas ela recebe um desmentido cabal e flagrante quando se observa a atuação da mídia internacional nos vários conflitos que envolvem Israel. Afinal, um bilionário ter nascido judeu não faz dele automaticamente um patriota israelense ou um amigo dos demais judeus, como o sujeito ter nascido americano não faz dele um discípulo fiel dos Founding Fathers.

A mídia é o instrumento supremo de ação das elites globalistas sobre a opinião pública. Daniel Estulin demonstrou, em A Verdadeira História do Grupo Bilderberg, que hoje em dia a grande mídia da Europa e dos Estados Unidos está concentrada nas mãos de uns poucos grupos globalistas.

Se Israel estivesse a serviço desses grupos, o que veríamos nos jornais e canais de televisão seria a defesa incondicional dos interesses israelenses mesmo quando fossem injustos e prejudiciais ao resto do mundo.

Na realidade, o que se vê é precisamente o contrário: façam os judeus o que fizerem, eles são sempre os errados, os malvados, os imperialistas, os agressores. A guerra de ocupação cultural muçulmana no Ocidente, em contrapartida, é invariavelmente pintada com as cores mais inocentes e comovedoras, como se a imposição arrogante da shariah e do poder islâmico na França, na Alemanha ou na Inglaterra fosse tão somente uma questão de proteger imigrantes desamparados e inermes.

Diante de cada confronto espontâneo ou fabricado, a reação pró-islâmica e anti-israelense da classe jornalística mundial é sempre imediata, unilateral e sem o mais mínimo exame crítico. A duplicidade de critérios com que aí são julgados os contendores mostra que a cobertura desses episódios, em praticamente todos os países e idiomas, já foi muito além do mero viés jornalístico e se transformou numa arma de guerra assimétrica. Ela tem a constância automática da obediência a um programa de ação previamente decidido. E quem o decidiu, senão os que têm os meios de fazê-lo, os donos da geringonça midiática?

Se Israel tivesse a seu lado o esquema globalista, teria também a mídia internacional, mas esta é de fato o seu principal e mais odiento inimigo. Longe de ser instrumento de um projeto mundial de poder, Israel é hoje quase uma nação pária, como Honduras, a Colômbia, Uganda ou o estado americano do Arizona, carregando, como eles, a culpa de tomar decisões independentes em favor de seu povo em vez de auto-sacrificar-se masoquisticamente no altar da Nova Ordem Mundial, como o fazem as nações européias.

Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

2 comentários:

Lucas Santos disse...

Agora sim um comentário sensato, realista e inteligente sobre a questão de Israel!

Jones disse...

Até a imprensaa israelense foi contra a ação militar:

“Alguém deve ser responsabilizado por essa falha lamentável”.
Editorial do Haaretz

“esta operação é o segundo filme de terror da série”
Gideon Levy, comparando o episódio com a operação chumbo fundido.

“Foi uma decisão de completos idiotas”.
Ari Shavit

“unidades de elite deveriam saber como tomar o navio sem afundar o Estado, como dominar passageiros empunhando paus e facas sem semear a morte”.
Yossi Sarid

“essas tropas, que seus comandantes descrevem como ‘as mais bem treinadas e eficazes do mundo’ temem o confronto com uma multidão de civis empunhando facas e paus?”.
Reuven Pedatzur

Não há santos nessa história.