terça-feira, 15 de junho de 2010

Executivo brasileiro conta como é a sua rotina na Líbia


Depoimento: Daniel Villar - O Estado de S.Paulo

Era novembro de 2007 quando recebi no escritório de Buenos Aires um telefonema de Marcelo Odebrecht fazendo-me o convite para liderar o início da operação da Odebrecht na Líbia. Minha reação foi perguntar: "Onde?". Depois de escutar os detalhes do programa, o que se seguiu foi uma mistura de sentimentos conflitantes.

Por um lado, o desafio proposto era extremamente motivador, pela oportunidade de ser pioneiro na abertura de um mercado. Ainda mais em um país como a Líbia, que vive um momento histórico relevante, com a retomada do crescimento. Por outro lado, fiquei apreensivo quanto à necessidade de mobilizar minha família. Afinal, em 12 anos de experiência profissional como expatriado no Equador, Peru e Argentina, minha esposa e três filhos sempre estiveram ao meu lado. Na Líbia, país muçulmano com uma cultura tão diferente da nossa, seria prudente levá-los comigo? Qual seria a qualidade do ensino, da moradia e do atendimento médico? Seria seguro?

Felizmente, todas essas dúvidas desapareceram durante uma visita à capital, Trípoli. A cidade, com seu clima mediterrâneo, é agradável e saudável para se viver. Nossos filhos recebem uma educação de qualidade numa escola internacional onde estudam crianças de 38 nacionalidades. Vivemos com conforto e segurança numa bela casa com piscina. Além disso, os líbios são amáveis e tolerantes com os costumes estrangeiros.

Claro que algumas diferenças culturais causam um certo impacto inicial. Minha esposa anda livremente nas ruas e não precisa usar o véu, mas preferiu excluir do guarda-roupa as saias curtas e as camisas sem mangas ou decotadas. Ela sente que perdeu um pouco de sua independência porque precisa do apoio de um motorista líbio tanto para se locomover quanto para se comunicar com vendedores e prestadores de serviço. Aqui, o árabe é praticamente o único idioma falado. Nos mercados locais, encontramos de tudo, com exceção de bebidas alcoólicas e carne de porco e seus derivados (proibidos por lei). Também nos acostumamos a sair de casa sempre carregados de dinheiro, já que as transações eletrônicas ainda não fazem parte do cotidiano e o preenchimento de cheques deve ser feito em árabe. Resta apenas o pagamento em espécie - até mesmo quando compramos um carro.

Com o passar do tempo, passamos a entender melhor a cultura árabe e a religião muçulmana. Apesar de termos mais contato com outros expatriados, o convívio com os líbios nos trouxe experiências marcantes. Já estivemos em um casamento onde homens e mulheres ficam em grupos separados. Presenciei o momento em que o pai do noivo, com a intermediação de um Imam (autoridade religiosa do islamismo), negociou e assinou o contrato de casamento com o pai da noiva. Enquanto isso, minha esposa observava as mulheres solteiras desfilando sem véu, na esperança de atrair os olhares de alguma potencial futura sogra (na tradição árabe, é comum que as mães escolham as esposas de seus filhos).

Hoje, temos a certeza de que tomamos a decisão correta ao aceitar esse desafio. A vida de expatriado não é fácil, seja na Líbia ou em qualquer outro lugar, pois nos tira da nossa zona de conforto. Mas o retorno que a experiência nos traz é imensurável. Enquanto me proporciona um acelerado crescimento profissional, a Líbia também contribui para que estejamos cada vez mais maduros e unidos como família e como casal.

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