quinta-feira, 10 de junho de 2010

Estudo mostra um mundo menos pacífico

LIZ FORD, THE GUARDIAN - O Estado de S.Paulo

De acordo com o Índice Global da Paz (IGP), o mundo ficou menos pacífico no ano passado, apesar da queda no número de conflitos armados. Dados divulgados esta semana mostram que as taxas de homicídio e crimes violentos aumentaram em todo o mundo, particularmente na América Latina, onde os níveis de tranquilidade tiveram a maior queda nos últimos 12 meses.

O IGP tem sido divulgado anualmente nos últimos quatro anos pelo Instituto para Economia e Paz, grupo de estudo global que pesquisa as relações entre economia, comércio e paz. Os rankings, compilados pelo Economist Intelligence Unit (braço de pesquisa da revista Economist) , são calculados com base em 23 indicadores, como crimes violentos, estabilidade política e gastos militares, relacionados a inúmeros indicadores de desenvolvimento social, como corrupção, liberdade de imprensa, respeito pelos direitos humanos e o número de crianças matriculadas em escolas.

Avanços. Os novos dados mostram que a África é a região do mundo que registrou mais avanços em termos de pacifismo, nos últimos quatro anos. O continente africano viveu menos conflitos, os gastos militares diminuíram e as relações com países vizinhos melhoraram. No entanto, a África Subsaariana ainda é uma das áreas menos pacíficas do planeta, com 9 Estados figurando entre os 20 últimos países da lista.

O Oriente Médio também vem melhorando sua posição desde 2006, com a redução dos gastos militares e uma melhoria nas relações entre os Estados da região.

O Sul da Ásia, contudo, nos últimos quatro anos tornou-se a região mais volátil de todas, principalmente por causa dos conflitos e os abusos dos direitos humanos. Este ano, o Paquistão ocupa o 145.º lugar da lista de 149 Estados e a Índia ocupa o 129.º. O que evidencia, segundo Steve Killelea, fundador do IGP, o impacto da guerra contra o terror.

Níveis de paz. Pelo segundo ano consecutivo, a Nova Zelândia foi considerada o país mais pacífico do mundo, com a Islândia no segundo posto, depois de ter caído do primeiro lugar para o quarto no ano passado. O Japão ficou em terceiro. Quinze dos 20 países considerados mais pacíficos da lista são da Europa central e ocidental e todos os países escandinavos ocupam os dez primeiros lugares, o que sugere que países democráticos, estáveis e pequenos são os mais pacíficos. A Grã-Bretanha, em 31.º lugar, foi um dos poucos países a melhorar seu ranking, com os Estados Unidos caindo duas posições, ficando em 85.º, por causa dos seus gastos militares, do grande número de pessoas mantidas em prisões e os índices cada vez mais altos de homicídio e crimes violentos.

Pelo quarto ano, o Iraque foi considerado o país menos pacífico do mundo, seguido por Somália, Afeganistão e Sudão. A Rússia ocupa a 143.ª posição. Este ano, alguns outros países entraram na lista do IGP, como Armênia, Gâmbia, Libéria, Serra Leoa e Suazilândia, que ocupam as posições de números 113, 63, 99, 53 e 73, respectivamente.

Num sentido, o IGP oferece uma justificativa para a paz - avaliando-a monetariamente em termos de crescimento do comércio e desenvolvimento econômico. Os autores do IGP estimam que o impacto econômico total de um fim da violência poderia ser avaliado em US$ 28 trilhões entre 2006 e 2009. Uma redução de 25% da violência global adicionaria US$1,85 trilhão por ano à economia global.

Segundo Steve Killelea, essa soma pagaria a dívida da Grécia, atenderia os requisitos anuais para atingir-se as Metas de Desenvolvimento do Milênio, pagaria o programa de redução de carbono da União Europeu e ainda sobraria alguma coisa.

Esse índice com os rankings pode ser bastante útil para governos doadores quando examinam seus programas de ajuda. O governo britânico está reexaminando os países para os quais presta assistência e criou um Conselho de Segurança Nacional para elaborar planos conjuntos para desenvolvimento e defesa. Num discurso na semana passada, o secretário de Desenvolvimento Internacional, Andrew Mitchell, falou da importância de se criar "sociedades estáveis e pacíficas no exterior", fazendo uma referência especial ao Afeganistão.

"É oportuno examinar o índice para saber como agir no momento de prestar ajuda. No passado, muita assistência foi dada com base em caprichos políticos, para promover alguns governos", disse ele. "Você precisa de estratégias e recursos certos para criar um governo que funcione bem e garantir que esses recursos beneficiem toda a população", afirmou Mitchell.

Crescimento. O secretário acrescentou também que a África teve um crescimento econômico importante na última década, o que contribuiu para melhorar o Produto Interno Bruto (PIB) do continente, para uma redução dos conflitos armados e a queda nos índices de mortalidade infantil, como também as taxas de ensino.

Mas para Steve Killelea, ainda há um caminho longo pela frente. "Não devemos esquecer que a África é a região mais violenta do mundo."

O país africano mais bem qualificado no ranking é Botswana, que ocupa a 33.ª posição da lista. Uganda está no 100.º lugar este ano, melhorando seu ranking. Mas Killelea observou que, embora o país tenha melhorado nitidamente em inúmeras áreas, particularmente em termos de crescimento econômico, a instabilidade política, uma piora no respeito pelos direitos humanos e um número crescente de mortes por causa do crime organizado continuam sendo grandes problemas para o país.

Nenhum comentário: