terça-feira, 18 de maio de 2010

Violência e guerras religiosas invadem Cannes

Xavier Beauvois, diretor de 'Des hommes et des dieux', em Cannes

O assassinato de monges católicos na Argélia em 1996, que inspirou o filme francês "Des hommes et des dieux" ("De Homens e Deuses), emocionou nesta terça-feira o Festival de Cannes, que já viu muita violência e cenas de guerra desde a abertura, na quarta-feira passada.

O filme de Xavier Beauvois, que disputa a Palma de Ouro, é livremente inspirado nos últimos meses de vida dos monges cistercienses de um mosteiro de Atlas, região de montanhas da Argélia.

Com uma grande economia de recursos, em harmonia com a vida em um convento, o filme recria o clima de angústia que aos poucos tomou conta dos monges, em meio a uma espiral de violência entre muçulmanos radicais e o Exército argelino.

Ao retratar as orações das manhãs, o atendimento que prestavam aos muçulmanos que moravam perto do mosteiro e mostrar cenas de quando ouviam os salmos, o filme passa os medos, dúvidas entre ir ou ficar, diante da iminência da tragédia, nunca esclarecida.

Com um ótimo elenco, com destaques para Lambert Wilson e Michael Lonsdale, o filme evita possíveis erros e cria empatia com o público, com os personagens que aparecem, em um tempo de dogmatismo, próximos de duas tradições religiosas.

"É pouco comum nos tempos atuais, onde o egoísmo impera, que existam pessoas com compaixão e que se ocupam dos demais, que respeitam a religião", declarou o diretor na entrevista coletiva antes da exibição de gala do filme.

Este não é o primeiro longa-metragem exibido em Cannes que retrata uma guerra sangrenta motivada por divergências religiosas. "La princesse de Montpensier", do francês Bertrand Tavernier, também usa a ideia, mas com menos sucesso.

A opção de Tavernier é filmar a longa e sangrenta guerra entre católicos e huguenotes (designação depreciativa que os católicos franceses deram aos protestantes, especialmente aos calvinistas, e que estes adotaram) a partir da visão da princesa de Montpensier e dos homens que se apaixonaram por ela, entre eles novamente Lambert Wilson, que interpreta um conde que abandona a luta depois do horror que sente ao matar uma mulher grávida.

A guerra civil também está presente em "Un homme que crie", do cineasta do Chade Mahamat-Saleh Haroun, que retrata as vítimas do conflito por meio de uma história familiar.

O programa do maior festival de cinema mundial inclui ainda um longa-metragem do britânico Ken Loach, "Route Irish", sobre a guerra do Iraque, que disputa a Palma de Ouro.

O título do filme, que será exibido na quinta-feira, faz referência ao caminho cheio de perigos que liga a zona internacional de Bagdá, a "Zona Verde", ao aeroporto da capital iraquiana.

Loach recebeu em 2006 a Palma de Ouro por "Ventos da Liberdade", sobre a guerra da independência da Irlanda.

A guerra do Afeganistão também foi retratada em Cannes, no documentário "Armadillo", do dinamarquês Janus Metz, cujo modo surpreendente de filmar os soldados no campo de batalha, no sul do país asiático, faz acreditar que se trata de um filme de ficção.

Fonte: AFP

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