quarta-feira, 5 de maio de 2010

O fundamentalismo dos novos ateus

Um ateu determinado a prejulgar qualquer religioso é perigoso e preconceituoso como um homem-bomba

A crise dos pedófilos na Igreja e as recentes manifestações sobre o papel de Deus nas tragédias ambientais - que ecoam na seção de cartas deste Destak - opõem de novo a fé e seus críticos. O debate é saudável, desde que sem fundamentalismos, seja religioso... ou ateu.

Foi após Nietzsche que o ateísmo encontrou sua face mais triunfante e ganhou terreno como parte indispensável de um mundo em que Razão e Conhecimento, filhos gêmeos do Questionamento, impuseram-se como os caminhos rumo à Sabedoria.

Chegamos faz pouco ao ateísmo militante de Christopher Hitchens e Richard Dawkins, de vasta cultura e argumentação demolidora, determinados a expor a inutilidade da religião. Depois, nasce a espécie que chamo de "ateu fundamentalista": quem não vê qualquer valor na religião e opta por combatê-la, como se fosse a raiz de todos males da humanidade. Pior: virou moda.

Que o fundamentalismo religioso é uma praga todos sabemos. De que uma educação religiosamente rígida pode ser extremamente destrutiva poucos duvidam. E a intolerância é mais gritante quando surge dos que seguem um líder cujo principal ensinamento era "amar o próximo" e até o inimigo.

Nada disso, porém, justifica ser intolerante com toda forma de religiosidade. Um ateu truculento é tão perigoso quanto um homem-bomba.

Por mais revolta que causem a Igreja que acoberta pedófilos e os favelados que proclamam confiar em Deus para encurtar o papo e continuar a viver em áreas de risco, não se pode jogar tudo no mesmo saco.

Seria desonesto negar que há milhões que usam crenças religiosas como uma via pacífica para alcançar uma vida mais sábia, mais justa e, sim, mais feliz.

O mal não vem da crença. Mas é óbvio que acobertar crimes ou justificar imprudências num manto de sacralidade torna tudo duplamente condenável. Este é o problema: à sombra das religiões, abrigam-se diferentes humanos - dos mais respeitáveis aos mais abomináveis e aproveitadores. Como em qualquer lugar.

Invalidar filosofias que pregam amor ao próximo, respeito à vida e busca honesta pela sabedoria - e, pior, acusar todos os seus adeptos de indivíduos irracionais - é impor uma tirania míope, baseada num preconceito tão vilão quanto a homofobia e o racismo.

Intolerância não é aceitável. Nem travestida de "justa vingança" nem de modernidade obrigatória.

O fundamentalismo dos novos ateus (2)

Há duas semanas, um artigo meu suscitou uma série de mensagens ao Destak e creio que convém retornar ao tema. O trecho em que afirmo que "um ateu truculento pode ser tão perigoso quanto um homem-bomba" foi, talvez, o que mais despertou controvérsia.

O problema do homem-bomba é que a ânsia de explodir invariavelmente escolhe mal o alvo. O ato intolerante condena em massa, bem longe de ser justiça.

É lícito abrir mão da religião, por opção pessoal.

É condenável qualquer crime que seja cometido em nome de religião ou acobertado por instituições religiosas. Porque crime é sempre crime.

É saudável debater à luz da razão os princípios e os dogmas das religiões, desde pagar o dízimo até o jejum no Ramadã, passando pela condenação da camisinha.

E é lícito contestar politicamente qualquer instituição que se apresente sob cunho religioso, principalmente quando ela se manifesta com força de partido, a fim de estender princípios sacros a um Estado laico.

Mas não é justo condenar, a priori, o sentimento religioso de alguém, uma crença que faz bem sem fazer mal aos outros.

Conheço uma senhora enviuvada após um longo casamento de 66 anos. Enlutada, foi ver um médico e decidiu incluir uma receita de antidepressivos na sua já extensa lista de remédios.

Por entender, sob sua ótica assumidamente católica, que "o fardo não é impossível de carregar", ela pediu, e o médico a liberou da medicação. "Tomo remédios demais", disse-me, sem que lhe falte dinheiro para eles. Suas longas orações a confortam da tristeza e poupam seu organismo de mais pílulas. Você condenaria o resultado só porque a alternativa não é científica? O ser humano tem necessidades metafísicas. Deu o "azar" de pensar, diferentemente de todos os outros animais, e por isso quer saber de onde vem, para onde vai e qual é a melhor forma de traçar esse percurso.

Para pôr a vida em perspectiva, a humanidade já usou astrologia, psicanálise, drogas, filosofia, artes, trabalho, prazer, saúde, religião, ciência. Algumas respostas são mais precisas, outras são mais fantásticas. Constitucionalmente, a maioria delas está liberada.

Se até o índio opta por continuar índio, é fácil entender que a evolução das respostas não seduzirá a todos. Portanto, mesmo que não se entenda a fé, respeitem-se as crenças individuais e aponte-se a mira corretamente para os crimes dos homens e das instituições.

Márvio dos Anjos - Editor do Destak Rio mailto:Riomarvio@destakrio.com.br -
http://www.destakjornal.com.br
Imagem: Internet

3 comentários:

AletheiaAgorah disse...

Não sei não... Acho que tem algum erro histórico nesta abordagem.
Na história da humanidade, as grandes guerras, confusões, dominações e escravidões foram norteadas por um pensamento religioso ortodoxo, seja lá de qual crença for. Se pegarmos as civilizações antigas, veremos que os hebreus tentaram combater os "infiéis" em nome de um Deus uno. Os babilônicos tentaram combater os hebreus em nome de seus deuses. Depois vieram os gregos, romanos e até os cristãos foram intolerantes contra os que pensavam diferente.
Agora uma pergunta lógica. Como você pode ser fundamentalista se você não crê em nada? Ninguém dá o que não tem. Agora os religiosos sim tem o que oferecer e não medem esforços para isso. Quem são os grandes preconceituosos?

Rodney Eloy disse...

Prezado Mr. M. do AletheiaAgorah,

O Márvio deixa bem claro em sua reflexão o contexto histórico em que ele se apóia!

Quem te disse que "ateus não acreditam em nada"????

Concordo com o recorte histórico que você apresentou, mas a História também mostra que regimes políticos ateus mataram mais do que a Religião.

Alexandre Castro disse...

Prezada colunista.

A história mostra (até os atuais dias) que religiosos possuem atitudes mais preconceituosas e sectaristas que os ateus e agnósticos.
Novamente vale a máxima de que que o problema não está no mecanismo, no automóvel, na religião e sim na essência do ser humano.