sexta-feira, 14 de maio de 2010

Novo projeto da diretora Kathryn Bigelow gera polêmica na AL


Evelyn Soares, Jornal do Brasil

Kathryn Bigelow, primeira mulher premiada com um Oscar de melhor direção, conseguiu acirrar os ânimos das autoridades de três países sul-americanos com seu novo projeto, o filme Triple frontier (Tríplice fronteira, em português), que terá como palco a fronteira entre Uruguai, Paraguai e Brasil. Segundo a imprensa americana, o filme abordará temas polêmicos, como contrabando, narcotráfico e o financiamento do terrorismo islâmico vinculado à região. Em entrevista à revista Vanity concedida em agosto de 2009, Kathryn sugeriu que o filme, cujo roteiro já foi comprado pela Paramount Pictures, poderá vir a ser rodado nas Cataratas do Iguaçu no segundo semestre deste ano, com estreia prevista para 2011.

Em entrevista ao JB, Liz Cramer, titular da Secretaria Nacional de Turismo do Paraguai, posicionou-se de maneira contrária à produção do filme, e disse que já contactou autoridades do Brasil e da Argentina para coordenar possíveis medidas conjuntas contra a sua realização.

– A produção do filme ainda não nos enviou a sinopse do roteiro, que mantém em sigilo absoluto, mas em entrevistas à imprensa, Kathryn Bigelow sugeriu que o filme é sobre a fronteira e o terrorismo. Se isso for verdade, o filme certamente não será bom para o turismo da região – alertou Liz.

Em nota, a prefeitura de Foz do Iguaçu também criticou a suposta temática do filme, argumentando que a desinformação causa danos irreparáveis à imagem da região e ao turismo regional:

“Acreditamos que não há elementos concretos para se afirmar a existência ali de qualquer ligação entre pessoas de ascendência árabe com o financiamento de grupos terroristas... De antemão, podemos garantir que não permitiremos, sem o nosso prévio consentimento o uso de qualquer imagem relacionada aos nossos atrativos turísticos no filme”.

– Sofremos muito quando os EUA começaram a dizer que aqui havia terrorismo – acrescentou ao JB o secretário de Comunicação de Foz do Iguaçu, Elson Marques. – Somos uma cidade cosmopolita.

A zona comercial na tríplice fronteira já foi considerada por relatórios do governo dos EUA como sendo um epicentro para a conexão e financiamento de grupos terroristas islâmicos. Em 2002, uma matéria da revista americana New Yorker, alertava que o Hezbollah estaria envolvido em operações criminosas no local.

Enrique Meyer, o secretário de Turismo argentino, disse que compartilha da indignação manifestada pela prefeitura de Foz do Iguaçu e pelo Ministério do Turismo Paraguaio, com o repúdio do tema escolhido para o thriller de Kathryn.

– Compartilhamos uma profunda indignação com esta produção que, até onde sabemos, pretende apresentar de maneira negativa uma região de fronteira – declarou Meyer, em entrevista ao El País.

Estima-se que 20 mil árabes e descendentes vivam na região, muitos deles muçulmanos dedicados ao comércio.

'Guerra ao terror': apologia ou apenas mais um thriller?

Considerado por muitos o melhor filme já feito sobre a guerra do Iraque, Guerra ao terror não faz o mea-culpa americano como seu concorrente pelo Oscar Avatar – visto pelos conservadores do país como uma fábula “ingênua” e “esquerdista”. Ao contrário de seu ex-marido James Cameron, a cabeça por trás de Avatar, Kathryn Bigelow, não faz julgamentos sobre a guerra. Sua principal preocupação é seguir de perto o desgaste físico e mental de seu protagonista, o desarmador de bombas Sargento James, em suas missões quase suicidas no Iraque.

Em recente artigo para o Estado de S. Paulo, o roteirista Luís Bolognesi (autor de Bicho de sete cabeças) causou polêmica ao creditar o fracasso de Avatar no Oscar pela inclinação política à esquerda do filme. Segundo Bolognesi, Guerra ao terror foi bem sucedido por agradar a parcela mais patriótica dos jurados da Academia do Oscar, graças ao seu retrato glorificado do soldado americano (“um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes”, descreve o roteirista). Outras vozes criticaram o longa por fazer uma suposta apologia à guerra no Iraque e retratar soldados iraquianos como figuras cruéis.

A opinião foi contestada por muitos setores, principalmente se levarmos em conta que o longa não se interessa em fazer teses sobre a guerra do Iraque. Uma das únicas diretoras de filme de ação de Hollywood, Bigelow prefere ver o Iraque como um espaço dramático e claustrofóbico, ambiente perfeito para criar a tensão que o filme pretendia. Se a cineasta e seu roteirista Mark Boal (que também colaborou com ela em Guerra ao terror) tiverem a mesma ambição ao filmar na tríplice fronteira, é possível que toda a polêmica sobre uma representação negativa da região não passe de muito barulho por nada. O máximo que poderá acontecer é Foz do Iguaçu tornar-se palco de um cinema de ação tipicamente americano, com muitas explosões e tiros de mentirinha.

Imagem: Internet

Um comentário:

Mateus disse...

só espero que ela não volte atrás como muitos fizeram.