segunda-feira, 10 de maio de 2010

Muçulmanas falam da decisão de se cobrirem com o hijab, veste que representa a devoção ao islamismo

Viviane Vaz para o Correio Braziliense

Enquanto na Europa o continente se divide para discutir o uso de véus islâmicos, a comunidade muçulmana no Brasil ainda se sente livre para ir e vir, sob véus ou não. “O Brasil é um país bom, aberto e cada um segue a sua religião”, diz o xeque egípcio Muhammad Zidane, líder religioso da mesquita de Brasília na 912 Norte. Na última sexta-feira (07/05), dia das orações dos muçulmanos, Muhammad lembrou as palavras do profeta Maomé para preparar a data festiva: “Deus ordena-nos que tratemos as mulheres de uma forma nobre, pois elas são nossas mães, filhas e tias”.

Regina Schwartz, 55 anos, dona de casa, orgulha-se de levar o hijab, vestimenta que cobre cabelos e pescoço e não deixa a silhueta à mostra. “Meus vizinhos acham lindo”, conta, acrescentando que não pode tirá-lo em público, porque fez votos. Apesar de ter nascido numa família católica, Regina relata que queria ser muçulmana desde jovem. “Eu só consegui vir para o Islã depois que meu pai, minha mãe e meu marido americano morreram. Fui muito tolhida pela família”, afirma.

Apesar da liberdade de culto e expressão nem sempre a decisão de usar o véu no Brasil é fácil. Cálida Ghazaleh, 36 anos, não teve tanta sorte com seus vizinhos em Brasília, quando decidiu adotar o hijab, há cerca de um ano. “Na minha quadra senti um pouquinho de dificuldade. Algumas pessoas não falam comigo, mas eu não ligo. O que importa é o coração, e que nós somos felizes usando o hijab”, diz. Filha de árabes, Cálida foi criada próxima ao Islã, mas nunca foi obrigada a frequentar uma mesquita ou a usar o véu. Ela explica que a decisão cabe à mulher muçulmana. “Foi uma necessidade espiritual que eu senti quando eu comecei a praticar (o Islã), para estar mais perto de Deus. Foi uma coisa maravilhosa que aconteceu”, ressalta a dona de casa, mãe de três filhos. Cálida revela ainda uma dica de beleza, que atribui ao uso frequente do hijab. “Meu cabelo agora vive sedoso, não queima mais por causa do sol”, brinca.

A origem do hijab, que em árabe significa recato e proteção, está no Corão — livro sagrado dos muçulmanos. “Ó profeta, dizei a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos crentes que quando saírem que se cubram com as suas mantas; isso é mais conveniente, para que se distingam das demais e não sejam molestadas; sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo”, diz o versículo 59 da 33ª Surata do livro. Já na Surata 24:31, a recomendação é que as mulheres “cubram o peito com seus khimar”. Segundo a estudiosa Maria C. Moreira, “a maioria dos teólogos e tradutores do Corão concorda que essa palavra se refere a um lenço usado pelas mulheres na época de Maomé que cobria a cabeça, o pescoço e talvez os ombros”, o que explicaria o costume adotado por muitas muçulmanas.

No entanto, segundo a escola de pensamento islâmica e da cultura local do país ou da região, o hijab pode se traduzir na prática da obrigatoriedade de uso da burca, caso dos talibãs afegãos. Outra possibilidade é uma recomendação para o uso do véu, como acontece na Turquia. Já na Arábia Saudita, na República Islâmica do Irã e na província indonésia de Achém, o uso do hijab é obrigatório a todas as mulheres, que o utilizam em diferentes estilos.

A indonésia Firdawati Yannes, 50 anos, vive há 24 em Brasília e por enquanto só usa o hijab para ir à mesquita. “Tenho vontade de usar sempre, mas tenho de limpar o coração primeiro. Há mulheres que tampam a cabeça, mas não o coração, e não são verdadeiramente puras e honestas”, explica. “Quando a gente decide usar o hijab, faz isso para Deus e não para as outras pessoas”, completa ela. Letícia Melo, 30 anos, também diz que só vai usar o hijab de forma definitiva para sair na rua depois que tiver aprendido muito sobre o Islã. Já a advogada Maria do Carmo Abu Hamra, 57 anos, casou-se com um comerciante palestino e usa o véu islâmico há 25 anos. Nascida em Teresina, Carminha, como é mais conhecida na mesquita, diz que o hijab é sinônimo de recato. “A gente cobre as coisas bonitas e só mostra ao marido”, brinca.

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