quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mais feio impossível

Nada é pior do que países democráticos, como Brasil e Turquia, alinharem-se a um violador de direitos humanos

Thomas L. Friedman, The New York Times - O Estado de S.Paulo

Confesso que quando vi pela primeira vez a foto do dia 17 do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, com seu colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o premiê turco, Recep Erdogan - depois de assinarem um suposto acordo para desarmar a crise sobre o programa de armas nucleares do Irã -, tudo que me ocorreu foi o seguinte: haverá algo mais feio que observar países democráticos venderem outras nações democráticas para um malfeitor iraniano ladrão de votos e negador do Holocausto só para provocar os EUA e mostrar que eles também podem jogar na mesa das grandes potências? Não, a coisa é feia assim.

"Durante anos, países não alinhados e em desenvolvimento criticaram os EUA por perseguir cinicamente seus interesses sem consideração pelos direitos humanos", observou Karim Sadjapour do Carnegie Endowment. "Agora que Turquia e Brasil buscam atuar no cenário global, enfrentarão as mesmas críticas que um dia expressaram. A visita de Lula e Erdogan ao Irã ocorreu alguns dias apenas após o Irã executar cinco presos políticos que foram torturados para confessar. Eles abraçaram calorosamente Ahmadinejad como seu irmão, mas não mencionaram uma palavra sobre direitos humanos.

Brasil e Turquia são democracias nascentes que superaram suas histórias de regime militar. O fato de seus líderes abraçarem e fortalecerem um presidente iraniano que usa seu Exército para esmagar e matar democratas iranianos - pessoas que buscam a mesma liberdade de expressão e de escolha política de que hoje desfrutam brasileiros e turcos - é vergonhoso.

"Lula é um gigante político, mas moralmente tem sido uma profunda decepção", disse Moises Naim, editor-chefe da revista Foreign Policy. Lula, observou Naim. "Tem apoiado a frustração da democracia na América Latina." Ele regularmente elogia o homem forte da Venezuela, Hugo Chávez, e Fidel Castro, o ditador cubano - e agora Ahmadinejad - enquanto denuncia a Colômbia porque permitiu que aviões americanos usassem campos de pouso colombianos para combater o narcotráfico. "Lula tem sido grande para o Brasil, mas terrível para seus vizinhos democráticos", disse Naim. Lula, que se destacou como líder sindical progressista no Brasil, virou as costas para os líderes sindicais violentamente reprimidos do Irã.

Evidentemente, se Brasil e Turquia realmente tivessem persuadido os iranianos a encerrar de maneira verificável seu programa de armas nucleares, os EUA os teriam endossado. O Irã possui atualmente 2,182 quilos de urânio enriquecido a 3,5%. Pelo acordo de 17 de maio, ele supostamente concordou em enviar 1188 quilos de seu estoque para a Turquia para conversão no combustível nuclear necessário para um reator de pesquisas médicas. Mas isso deixaria o Irã com aproximadamente 990 quilos de urânio, que ele está livre para continuar enriquecendo ao nível necessário para uma bomba - 95%. Especialistas dizem que o Irã precisaria de alguns meses para obter quantidade suficiente para uma arma nuclear.

Então, o que esse acordo faz é o que o Irã queria que ele fizesse: enfraquecer a coalizão global para pressionar o Irã a abrir suas instalações nucleares à inspeção e, como um bônus especial, legitimar Ahmadinejad no aniversário da repressão ao movimento pró-democracia que pedia recontagem de votos das fraudadas eleições de junho.

Duas vias. O Ocidente deveria ter seguido uma política de duas vias: negociações francas sobre a questão nuclear e uma discussão não menos franca sobre as questões de direitos humanos e democracia no Irã. Eu gostaria que o Irã jamais obtivesse a bomba. Mas se o Irã se tornar nuclear, faz diferença se o dedo no gatilho é o de um Irã democrático ou da atual ditadura clerical assassina. Todo aquele que conseguir trabalhar para retardar isso e promover uma democracia no Irã está do lado dos anjos. Todo aquele que capacitar o regime tirânico e der cobertura a sua perversidade nuclear um dia terá de responder ao povo iraniano.

Um comentário:

Marli disse...

Hipocrisia americana!!!!!!!!
Eles gastam 54% do orçamento na guerra (Iraque, Afeganistão...) contra 6,2% na educação e 5,3% na saúde.

Um ótimo texto de Claudio Katz sobre a atual crise: "Las tres dimensiones da la crisis". ótimo texto!!!!!