terça-feira, 4 de maio de 2010

Homem de Ferro sem máscara

Motivos ele deu para ser acusado de propagandista do pensamento norte-americano. E não foram poucos

O Homem de Ferro nunca foi dos super-heróis mais irrepreensíveis, nem ele quis ser. Mulherengo, farrista, gastador, bilionário, exibido, sarcástico, zombador. Um playboy típico. Orgulha-se da condição, exerce-a sem o menor problema, mais queria ter ele tempo para não largar o copo de uísque e as pernas de uma gata.

Como tem que combater malfeitores, freia os prazeres e entrega-se ao dever. Gosta de se sentir energético.

Acusá-lo de suma extravagância cabe. O que não cabe mais, já parece azedume de esquerdista com prazo há muito vencido, é chamá-lo de doutrinador do Tio Sam. Corrigindo: até cabe um pouco. Mas, por favor, patrulha ideológica, menos. Bem menos do que no passado.

Motivos ele deu para ser acusado de propagandista do pensamento norte-americano. E não foram poucos.

Quando foi lançado em 1963, na revista Tales of Suspense nº 39, Tony Stark era um gênio da engenharia de automação, industrial de armamentos que fornecia artefatos aos EUA para o combate na guerra do Vietnã.

Foi aos locais de batalha testar uma nova bomba de fabricação sua. Ela explodiu e os estilhaços atingiram-lhe o coração. Graças aos vietnamitas, conseguiu sobreviver, mas foi obrigado a criar uma bomba para o exército do lado oposto.

E ele criou uma armadura com o que tinha por lá, design não dos melhores, tecnologia nada de ponta, mas deu para bater em muita gente e fugir. Já em casa, decidiu repaginar o novo brinquedo e surgiu nosso herói.

Passou a ser visto voando e disparando raios contra vilões sempre ligados ao regime socialista. O Mandarim é um chinês, ex-aristocrata, bigodinho longo e roupas típicas, que tenta dominar o mundo. A Viúva Negra uma russa ruiva, linda, com curvas, bunda e peitos de garota de Ipanema, sempre comprimida em um macacão de couro, ninja, meio inimiga e meio amante, espiã da URSS. O Dínamo Escarlate, um cientista também do império dos camaradas, outro desequilibrado, doente pelo poder total.

Ou seja, todos do lado vermelho da força, tido naqueles tempos de Guerra Fria, pelos direitistas, como o lado do mal.

Para enfrentá-los, o Homem de Ferro criava tudo o que seu intelecto privilegiado concebia, de um raio propulsor a um míssil portátil. Era o Homem de Ferro que o povo queria ver e se identificar.

Os anos 1960 foram passando, passando, ele foi evoluindo, a mentalidade americana mudando, mudando, e, para agradar ao público, Tony Stark se adaptou.

Lá pelo fim dos anos 1960, boa parte do povo dos EUA rejeitava a guerra do Vietnã, queria um ponto final, ver seus rapazes voltando para a casa sem ser em caixões. Stark embarcou. Rebelou-se, passou a ser pacifista, negando-se a inventar armamentos para o governo.

Sumiu um pouco da prepotência imperialista que carregava, meio no disfarce, sempre jogando-a para os vilões. Surgiu alguém mais humanista. Era o Homem de Ferro que o povo queria ver e se identificar.

Agora, nas telas de cinema, temos um Tony Stark atualizado. Ao invés de vietnamistas coloque afegãos, ao invés do comunismo, o islamismo, pegue o mesmo enredo da criação do nosso herói e ele está de volta, em carne, osso, metal e altíssima tecnologia. É o Homem de Ferro que o povo quer.

Tem ainda lá suas ideologias. Tem lá seu patriotismo um tanto governamental. Mas tem também seu lado humano, frágil e defeituoso, acentuado.


Nestes 47 anos, ele não é mais o mesmo em nenhum aspecto


Estamos na época do individualismo. Os problemas derivados dele estão em alta. Queremos vê-los nos heróis, senti-los gente como a gente, que mesmo sendo super têm sensações, percepções, alegrias e baques como nós.

Stark, nas HQs, demonstra com menos sutileza a fragilidade de seu coração lancinado. É mais mortal. A dependência alcoólica aumentou, a angústia e os questionamentos de certo e errado também, as dúvidas de que lado estar muito mais. A autoridade do governo ou da liberdade do cidadão?

O fundador dos Vingadores chegou a tomar um lado contrário ao do Capitão América na saga Guerra Civil, escolhendo defender o registro estatal de cada superser da Terra, em uma série especial que dividiu o Universo Marvel ao meio, pondo heróis contra e a favor do catálogo e do monitoramento estatal.

A quedinha pelo autoritarismo persiste, ainda fornece ao poder engenharia bélica avançada. Mas, nestes 47 anos, ele não é mais o mesmo em nenhum aspecto.

De uma armadura de ferro com transistores ao exoesqueleto de titânio com ouro, enrijecido por campo magnético, com computador de navegação, nanotecnologia, sensores, sonares, disruptor sônico, emissores de pulsos eletromagnéticos, visor com precisão de um satélite, tecnopatia, capacidade de invadir e controlar sistemas digitais e tantas outras parafernálias, nas versões aquática, espacial, e lá se vai. Mudou, para melhor, e muito, neste aspecto.

Seu rótulo americanófilo não é mais tão feroz , não tão simplista como alguns paranoicos farejadores de mensagens subliminares querem grifar, pela conveniência. Afinal apontar qualquer recadinho oculto, por pura má vontade ou ivencionice, favorece e muito o lado deles, adoradores do maniqueísmo comunistas bonzinhos, capitalistas malvados.

Em Stark, ficaram e aprimoraram-se o bom humor, as ironias ferinas, as observações perspicazes, seu gosto pelas baladas e pelas top models, a influência no governo e entre outros super-heróis.

Ainda é o “elétrico, atômico, genial”, como o tema do desenho animado dos anos 1960, aquele no qual ele era um mero recorte de revista, balançando, para frente e para trás, sem movimento algum nas articulações.

O tema do desenho dizia ainda que ele “tira onda de cientista espacial”. É. Cientista ele é. E tirar onda, tira. E muita. Ninguém é de ferro.

Miguel Rios no JCOnline

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