segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cuba aceita transferir presos, diz igreja

Em concessão do governo, detentos políticos irão a presídios perto de suas casas, e doentes serão internados

Gesto ocorre cinco dias depois de reunião entre o arcebispo de Havana, Jaime Ortega, e Raúl Castro, a 1ª desde 2008

O governo cubano aceitou transferir, a partir de hoje, presos políticos para presídios perto de suas cidades de origem e internar em hospitais os detentos doentes.

A informação é da Igreja Católica, que está fazendo a mediação entre o regime e a dissidência na ilha.

Anteontem, o bispo auxiliar de Havana, Juan de Dios Hernández, visitou no hospital Guillermo Fariñas, dissidente em greve de fome há três meses, e relatou a transferência dos presos.
A igreja foi informada do fato pelo Partido Comunista Cubano, segundo a Associated Press. Mas até ontem não fora feito nenhum anúncio oficial da medida.

Fariñas disse à Folha que há 17 detentos políticos presos fora de suas Províncias de residência e 26 doentes (nas contas da igreja, são 37). Mas ele não sabe quantos serão de fato realocados.
"Estou cético e em expectativa. Vamos esperar até amanhã [hoje] para ver se começam [as transferências]", afirmou Fariñas, que jejua para demandar a soltura dos presos doentes.
A dissidência cubana calcula que o país tenha um total de 200 presos políticos -o que o governo nega, considerando os detidos mercenários a serviço de Washington.

Primeiro encontro
O gesto ocorre cinco dias depois de um encontro entre o arcebispo de Havana, cardeal Jaime Ortega, e Raúl Castro, pela primeira vez desde que este se tornou dirigente máximo, em 2008.
O líder da Conferência Episcopal do país, Dionisio García (presente no encontro), disse que o governo demonstrou "boa vontade".

A igreja, de relação historicamente conturbada com o regime, iniciou, segundo ela própria, "um diálogo em estilo totalmente novo" com o governo. Recentemente, obteve a permissão para que o grupo Damas de Branco, de mulheres de presos políticos, voltasse a marchar.

Fariñas, que está hospitalizado, diz que, apesar do gesto do governo e de sua saúde debilitada, manterá sua greve de fome até que os presos doentes sejam libertados. "Somos concretos em nossa demanda. [A transferência] não é exatamente o que solicitamos."

A morte por greve de fome de outro dissidente, o preso político Orlando Zapata, em fevereiro, elevou a pressão sobre o regime castrista.

E a expectativa por libertações de presos políticos aumenta com a visita do chanceler do Vaticano, Dominique Mamberti, a Havana, agendada para 20 de junho.

Em 1998, após histórica visita do papa João Paulo 2º, Havana libertou 300 presos.
Mas Fariñas disse que foi informado de que Mamberti não tratará de libertações durante sua visita.

Fonte: Folha de S. Paulo

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