quarta-feira, 5 de maio de 2010

Bairro de Israel é exemplo de convívio pacífico entre povos

Microcosmo. Em Hadar, na cidade de Haifa, palestinos e israelenses convivem bem, principalmente em mercado




Comércio. Mercado Talpiot, no bairro de Hadar, em Haifa, onde palestinos e israelenses estão lado a lado

Entretanto, escolas ainda são separadas e casamentos entre eles é uma raridade

Renata Medeiros, em O Tempo

Jerusalém. Palco de um antigo conflito, Israel possui uma história de guerras e desentendimentos. No país, o impasse israelo-palestino deixa marcas e influencia a vida de seus habitantes. Em meio à tensão, porém, moradores de um bairro na cidade de Haifa, ao norte do país, apostam no respeito às diferenças.

Desde sua fundação, em 1944, ainda antes da independência de Israel, em 1948, o bairro Hadar abriga judeus e palestinos. Com o objetivo de criar um espaço onde a vizinhança pudesse realmente interagir, o líder comunitário atual, Yaron Hadar, criou, em 2005, um centro comunitário. No local, são realizadas reuniões, além de exposições de fotos e mostras de filme. "Todos estão convidados a participar dos eventos. Procuramos unir as pessoas que aqui vivem. Promovemos a ideia: ‘o diferente é bom’", comenta Yaron.

Ao andar pelas ruas do bairro, é possível ver a diversidade ali existente. "Em Hadar, pessoas expressam seus pensamentos livremente. Ele deveria ser exemplo para o resto do país, já que ali judeus e palestinos conversam, vivem juntos, vão aos mesmos locais", diz a socióloga Yahel Ash Kurlander, que realiza trabalhos junto à comunidade.

Mercado. O mercado a céu aberto em Hadar, chamado Talpiot, é um dos ambientes onde essa convivência pode ser percebida. Ali, entre barracas pertencentes a judeus e palestinos, colocadas lado a lado, o consumidor encontra legumes, verduras, doces e comidas típicas de ambos os povos. "Em Talpiot, todos trabalham juntos, fazem compras juntos. Compro onde o preço é melhor. Não importa a procedência do vendedor", afirma o judeu Ilan Roimy, 42. "A diversidade aqui é grande, o que torna o lugar especial", completa o também judeu Joel Baron, 63.

Talpiot faz parte da vida do israelense de descendência palestina Khalin Vda, 40, que há 28 anos trabalha no local. "É gratificante conviver com tantas culturas diferentes", diz. Em Talpiot, devido ao contato com os clientes, ele aprendeu a falar várias línguas.

Uma palestina que também admira tanto o mercado como Hadar é Noor Hababy, 22. Ela conta que nunca se sentiu desrespeitada devido à sua religião, o islamismo. "Aqui não há preconceito ou desentendimento. Seria bom se essa fosse a realidade em todo o país. O que queremos, tanto palestinos quanto judeus, é paz", diz.

Barreiras. Apesar da integração que existe em Hadar, Yaron afirma que ainda há muito trabalho a ser feito. A escola que a criança judia frequenta não é a mesma da criança palestina. "Ensinam a meus filhos biologia, matemática. Quero é que eles aprendam a respeitar a todos e isso deveria ser ensinado na escola", reclama a radialista judia Inbar Dotan.

A união matrimonial entre esses dois povos, de acordo com a socióloga Yahel, é uma realidade rara. "Israel não reconhece legalmente o casamento de um judeu com um não-judeu. Mas se esse resolve viver com uma palestina, a relação tende a ser muito difícil", teoriza.

Se uma guerra explode em qualquer outro local do país, a tendência é que judeus e palestinos evitem sair às ruas ou falar uns com os outros. "Todos ficam bastante sensíveis", conta Yahel.

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