terça-feira, 6 de abril de 2010

Teoria da conspiração

A liberdade religiosa e o respeito às crenças são argumentos valiosos demais para serem usados em defesa de ilegalidades e imoralidades praticadas por homens, para satisfazer ambições e desejos que nada têm de nobres ou espirituais

Dizer-se vítima de perseguição e de campanhas difamatórias movidas pela imprensa não resolve os problemas que afligem as religiões de tempos em tempos, devido a ações indefensáveis praticadas por seus integrantes. Mas é, ainda, a maneira recorrente como as religiões procuram responder a notícias desfavoráveis sobre elas, mesmo quando estas se apresentam amparadas em provas materiais, testemunhos e confissões.

A estratégia é nitidamente diversionista, e não esconde uma tentativa de fugir à responsabilidade, ao mesmo tempo em que se procura elevar os litígios da esfera criminal para outra, mais alta, que envolve o respeito aos direitos individuais e à liberdade religiosa. Fiéis que não leem jornais e tendem a acreditar cegamente em seus líderes são, dessa forma, levados a crer que tudo não passa de intriga, preservando-se em parte, ao menos, o respaldo público à instituição sob suspeita.

Foi assim quando os fundadores da Igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sônia Hernandes, foram presos em Miami (EUA) por tentar entrar naquele país com dólares não declarados, em 2007. Pastores da igreja em todo o Brasil foram ao púlpito para acusar perseguição aos líderes da Renascer, que também respondiam a processos na Justiça brasileira. A igreja evangélica tem crescido de forma avassaladora. E, espiritualmente, existe uma resistência contra isso, disse na época a pastora Adriana Bernardo, de São Paulo, citada pelo portal de notícias cristãs Gospel+.

Esse mesmo tipo de argumentação foi utilizado mais recentemente em Sorocaba, quando a Guarda Municipal (GM) prestou serviços de escolta ao líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago Oliveira, a pedido de um ex-vereador. Em sua passagem pela Câmara, onde foi para tentar explicar o episódio, o secretário de Segurança Comunitária, José Milton da Costa, sem citar a base legal para o serviço oferecido (até porque ela não existe), leu uma nota atribuindo as queixas a preconceitos e intolerância de natureza religiosa.

Embora não oficialmente, mas pela voz de lideranças respeitadas pelos fiéis, também a Igreja Católica abraçou a teoria da conspiração, como resposta à avalancha mundial de denúncias de abusos sexuais praticados por padres e omissão de seus superiores na apuração e punição dos casos.

Há poucos dias, o jornal LOsservatore Romano, órgão oficial da Igreja Católica no Vaticano, afirmou em editorial que as reportagens publicadas pela imprensa internacional, sobre pedofilia e maus tratos praticados por padres, fazem parte de uma campanha difamatória para atingir a honra da Igreja e do papa Bento XVI. Na semana passada, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Lyrio Rocha, referiu-se, em pronunciamento na TV, a duros e injustos ataques contra a Igreja e o Papa.

A declaração mais polêmica, entretanto, foi feita pelo cardeal Raniero Cantalamessa, durante a liturgia da Paixão de Cristo na Basílica de São Pedro. Na presença do Pontífice, o cardeal leu uma carta supostamente enviada por um amigo judeu, em que o ataque violento e direcionado contra a Igreja e o Papa foi comparado aos aspectos mais vergonhosos do antissemitismo. A tentativa de equiparar as denúncias contra padres pedófilos ao extermínio gratuito e injustificado de milhões de judeus causou compreensível indignação no mundo todo.

É lamentável que essa discussão, sobre a qual o próprio Papa já ensaiou uma atitude corretiva e conciliadora, tenha se desviado para esse tipo de alegação. A liberdade religiosa e o respeito às crenças são argumentos valiosos demais para serem usados em defesa de ilegalidades e imoralidades praticadas por homens, para satisfazer ambições e desejos que nada têm de nobres ou espirituais. Acusações devem ser respondidas com argumentos claros e objetivos. Atribuir as falhas apontadas a perseguições é uma forma pouco eficiente de encarar o problema, e não ajuda em nada no que realmente interessa: a prevenção de novos erros.

Fonte: Jornal Cruz do Sul

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