quinta-feira, 29 de abril de 2010

Religiosidade protege coração, diz estudo

Pesquisas americanas ligam prática espiritual a redução de risco cardíaco; cardiologistas debatem tema hoje

Fernanda Bassette

Dois estudos internacionais indicam que a religiosidade pode proteger da morte por problemas cardíacos e de doenças como hipertensão.

Por 30 anos, médicos norte-americanos acompanharam a saúde cardiovascular de 6.500 adultos que não apresentavam fatores de risco (obesidade, tabagismo etc.). Constataram menor número de mortes por doenças do coração entre os que seguiam alguma religião.

Outro estudo americano, realizado pela Universidade de Duke com 3.963 pessoas, concluiu que a leitura de textos religiosos, a prática de oração ou a participação em cultos reduziu em 40% o risco de a pessoa desenvolver hipertensão. Com base nesses resultados, a Sociedade de Cardiologia de São Paulo vai discutir pela primeira vez a relação entre espiritualidade e saúde cardiovascular, em um congresso que começa hoje na capital.

"Cada vez mais estudos apontam essa associação benéfica. Os resultados ainda não são definitivos, mas merecem ser discutidos", diz o cardiologista Álvaro Avezum, diretor da divisão de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo. Existem algumas teorias para explicar por que as pessoas religiosas têm menos doença cardiovascular. A principal delas, de acordo com Avezum, é o controle do estresse.

"O estresse aumenta os níveis de cortisol no sangue. Isso eleva a pressão arterial e pode provocar taquicardia -fatores de risco para problemas cardiovasculares. As pessoas espiritualizadas têm maior convivência social e enfrentam os problemas da vida de maneira mais fácil, gerenciam melhor o estresse", diz.

O psicólogo José Roberto Leite, do departamento de Psicobiologia da Unifesp, concorda. "Pessoas que têm uma crença religiosa costumam alimentar expectativas positivas em relação ao futuro."

Resultados controversos
O geriatra Giancarlo Lucchetti, do Departamento de Neurologia da Unifesp, diz que a dobradinha religiosidade e espiritualidade sempre esteve muito próxima da saúde, embora haja conclusões controversas. "Há estudos que mostram benefícios,outros não. Mas a religiosidade é benéfica não apenas para o coração, mas para a saúde como um todo."

Lucchetti fez um levantamento com 110 pacientes idosos que estavam em reabilitação na Santa Casa de São Paulo. Aqueles que eram mais religiosos tiveram uma melhora mais rápida no tratamento e relataram ter mais qualidade de vida, segundo o médico. Ele alerta, porém, para o fato de que a religião pode atrapalhar o paciente, dependendo da abordagem: "Muitas pessoas acham que um problema de saúde acontece porque estão sendo punidas, porque Deus as abandonou. Isso provoca desfechos piores no tratamento e maior índice de depressão".
Religiosidade, sozinha, não faz milagre, como lembra o cardiologista Marcos Knobel, do hospital Albert Einstein: "Quem só se dedica à religião e esquece de outros fatores não estará mais protegida do que alguém que cuida da saúde, mas não é tão religioso".

Colaborou Gabriela Cupani


Um caso clássico de "confusão" estatística


Ter Deus no coração faz bem à saúde? Uma leitura apressada de vários estudos recentes nos Estados Unidos dá a entender que sim: um deles aponta uma correlação positiva entre frequência a serviços religiosos e redução no risco de morte; outro mostra que o risco de hipertensão não apenas cai em praticantes religiosos como é tão menor quanto maior for a frequência a igrejas, sinagogas e outros templos.

A aparência de milagre começa a se desfazer quando se acrescenta a esse rosário de pesquisas médicas um estudo concluído também nos Estados Unidos, em 2006, que avaliou durante uma década o efeito das orações feitas por estranhos na intenção de pacientes que convalesciam de cirurgias cardíacas.

A pesquisa foi bancada pela fundação cristã americana Templeton e atendeu a critérios rigorosos de testes clínicos: os 1.800 pacientes avaliados foram divididos em grupos de pessoas que sabiam estar recebendo as orações intercessórias e que não sabiam.

Seus autores não só não viram nenhum efeito estatisticamente discernível da oração sobre a recuperação dos doentes: ao contrário, as pessoas que sabiam estar recebendo orações tiveram uma ligeira piora.

Acasos
Os resultados díspares ilustram um caso clássico daquilo que os epidemiologistas chamam de "confusão", ou um fator que aparentemente tem relação causal com um resultado qualquer, mas que, na verdade, só está mascarando outros fatores -esses sim, causais.

Minha avó Aparecida, católica devota e morta em Juiz de Fora com avançados 93 anos, é um exemplo de como esse tipo de confusão pode operar. Ela não bebia, não fumava e dormia cedo para poder ir à missa todos os dias às seis da manhã -religiosamente.

Sua religião trazia no pacote toda uma rede social, vida saudável, atividades comunitárias e, por último, mas não menos importante, caminhadas matinais pelas ladeiras da cidade.

Tivesse sido incluída no estudo americano, minha avó atestaria como a religião diminui os riscos à saúde. Porém, se a pesquisa focasse não devotos, mas membros de um clube de escalada, digamos, o efeito seria provavelmente o mesmo.

Prova desse efeito é o valor alto, no estudo da hipertensão, do chamado "p", número mágico que estima a probabilidade de que o efeito observado seja casual. Em epidemiologia, valores de "p" aceitáveis são menores que 0,05. Nesse trabalho, o número é dez vezes mais alto.

Seus autores, dos Centros Nacionais de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, parecem saber disso: "A participação religiosa pode reduzir os efeitos do estresse no indivíduo ao ajudar na integração social, fornecer apoio social e evitar hábitos pouco saudáveis". Eles continuam: "Estudos são necessários para excluir causação reversa (doenças crônicas e a necessidade de tomar remédios podem induzir mais atenção religiosa)".

Qualquer que seja a relação entre religião e boa saúde, Deus não parece ter nada com isso.

Folha de S. Paulo

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