quinta-feira, 29 de abril de 2010

Portugal: O Mito do "País Católico"


por Brissos Lino
(Docente Universitário)

É tradição afirmar-se que Portugal é um país católico. Não creio, porém, que tal colocação corresponda à realidade, por diversas ordens de razões.

Se a referida afirmação é algo mais do que uma crença, então que critérios poderão ser utilizados para estabelecer tal definição? A prática religiosa da população e o seu compromisso com a igreja? O conhecimento e observância da doutrina? A tradição cultural? A filosofia do direito que enforma o quadro legal vigente? A Constituição da República? A auto-identificação dos próprios cidadãos?

Analisemos então cada uma delas.

Prática religiosa
Antes de mais, e segundo os dados fornecidos pela própria igreja católica no país, referentes a 2001 (último recenseamento), Portugal tem mais de nove milhões de católicos, o que corresponde a 89,9 por cento da população, mas os praticantes não chegam aos dois milhões de fiéis. “O número de fiéis nas missas dominicais católicas em Portugal baixou 14 por cento em relação a 1991, correspondendo a uma diminuição de 310 mil pessoas, relativamente ao recenseamento do género que foi feito 25 anos antes, em 1977. Isto significa que, em 25 anos, a igreja católica terá perdido mais de meio milhão de fiéis que participavam regularmente nas eucaristias dominicais”.

Compromisso com a igreja
Coisa semelhante se pode observar em matéria de compromisso cristão, quando os auto-denominados católicos portugueses (ou pelo menos a sua imensa maioria) vão três vezes à igreja durante toda a vida, como se costuma dizer, com alguma ironia. Da primeira vez levam-nos nos braços (baptismo), na segunda vão pelo seu pé (casamento) e da última vez… carregam-nos numa caixa de madeira (funeral).

Conhecimento e observância da doutrina
Se falarmos do conhecimento básico do catolicismo, dos seus dogmas, doutrina e práticas, a ignorância, então, é atroz entre essa esmagadora maioria da população. Desconhecem o significado da eucaristia, da missa e de quase tudo. A maioria não saberá sequer enumerar coisas tão básicas como, por exemplo, quantos e quais são os sacramentos.

E quanto à observância da doutrina, então, aí o desastre é total. Não só não fazem ideia do que seja, como não a praticam (o que, desde logo, decorre obviamente do seu desconhecimento), como, ainda pior, discordam de parte da mesma, quando o conhecem, como acontece em diversas matérias da chamada doutrina moral (uso do preservativo, aborto e sacerdócio vedado às mulheres, entre outras matérias).

Tradição cultural
Os portugueses em geral assumem-se católicos por uma questão meramente cultural. Como o país tem uma tradição romanista, desde que tenham alguma crença em Deus parece-lhes lógico identificarem-se como católicos, embora não frequentem os serviços religiosos nem vivam em situação de compromisso com a respectiva doutrina e moral. Trata-se de uma questão meramente identitária.

Lembremo-nos que não vão assim tão longe os tempos em que, para se ser bom português tinha que se ser católico e apoiante do regime do Estado Novo.

A filosofia do direito que enforma o quadro legal vigente
Revelam as leis do país uma filosofia cristã? Nem por isso. E até parece que apresentam cada vez menos tal matriz, veja-se o caso das recentes leis do divórcio, da interrupção voluntária da gravidez ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não será por aí que se pode considerar o país católico, já que não expressa nas suas leis tal ideologia religiosa.

A Constituição da República
E o que diz a nossa Constituição sobre esta matéria? Como lei magna democrática de um país civilizado e respeitador dos direitos humanos que é não vincula os cidadãos a uma religião específica. Cada um é livre de professar a que quiser ou nenhuma, sem que disso tenha que prestar contas às autoridades ou aos seus concidadãos.

A auto-identificação dos cidadãos portugueses
Como já dissemos acima, uma maioria de cidadãos identifica-se como católica quando questionada sobre a sua religião, inclusive nos censos nacionais, embora tais pessoas pouco ou nada tenham de católico. Mas isso faz de Portugal um país católico?
Quando se fala de um país católico quer-se significar que a maioria da população terá uma consciência, valores e práticas em consonância com essa via religiosa. Honestamente, por tudo o que acima ficou dito, não me parece que seja essa a realidade portuguesa.

Conclusão
Sejamos honestos e realistas. A maioria dos eleitores votou no referendo a favor do aborto, contra as orientações da igreja católica. Cada vez há menos casamentos e mais divórcios, apesar do facto de o casamento ser considerado pela doutrina romanista um sacramento e indissolúvel. Nos últimos anos os jovens juntam-se mais para viver em comum do que casam.

Ninguém leva a sério o posicionamento absurdo do Vaticano contra o preservativo nem a ideia ainda mais abstrusa de que o sexo terá apenas a finalidade única de procriação.

Os ditos “católicos” desconhecem os dogmas fundamentais da sua suposta religião, discordam de alguns dos seus dogmas e, acima de tudo, não a praticam.

Chamar a isto um país católico será, então, uma forma de saudosismo, de ignorância ou de luta desesperada, por parte da igreja romanista, para não perder poder e privilégios seculares.

A vida espiritual é muito mais do que uma questão de cultura. É uma escolha consciente, um compromisso e uma matéria pessoal e íntima.
À luz do acima exposto não creio, portanto, que alguém possa afirmar de boa fé que Portugal seja hoje um país católico.

Trata-se apenas de mais um mito nacional.

Fonte: Setúbal na Rede
Imagem: Internet

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