quinta-feira, 1 de abril de 2010

'A Páscoa está se tornando apenas mais uma data no calendário'

Artigo do leitor Cleibber Fernandes dos Santos

O fim do período quaresmal remete-nos para uma reflexão acerca das ações de cada um de nós, como ser humano, social, cultural, econômico e educativo. Independentemente da religião professada pelas pessoas, precede à Semana Santa, na quase totalidade do país, o respeito a um dos rituais bíblicos mais respeitados pela sociedade: o período de confinamento e tentação de Cristo, sua entrada triunfal em Jerusalém, acusação, condenação, morte e ressurreição.

Iniciado após uma das festas mais profanas brasileiras, chamada carnaval, o período quaresmal simboliza a penitência exigida pelos três dias de farra e algazarra da população, que no período carnavalesco tudo pode e tudo faz.

Na semana em que os católicos consideram santa, as religiões afrodescendentes consideram "forte" e os protestantes consideram uma boa ocasião para encontros de reflexão, não é demais dizer que a semana final da quaresma também é a que se caracteriza por representar de forma mais acentuada o sincretismo religioso presente na sociedade brasileira.

Crenças à parte, devemos lembrar que as últimas notícias veiculadas pelos meios de comunicação em nosso país são desanimadoras. Um dos casos mais recentes de desrespeito ao ser humano denuncia a Igreja Católica como detentora não somente do maior número de fiéis no mundo, mas também a instituição religiosa que seus dirigentes estão envolvidos com mais casos de pedofilia.

Mas os escândalos não estão presentes apenas na Igreja Católica. Não devemos esquecer que, há pouco mais de um ano, dirigentes de uma igreja denominada evangélica, chamada Renascer em Cristo, foram presos nos Estados Unidos sob a alegação de contrabando de dinheiro. No Brasil, o casal fundador da Renascer também responde a processos por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e estelionato.

Infelizmente, grande parte das instituições religiosas, que na teoria têm a função sócio-educativa e religiosa, não consegue cumprir a sua missão de conduzir as pessoas pelo caminho do arrependimento das más ações e o grande exemplo deixado por Cristo é relegado a segundo plano e não é assunto propício para as homilias das Igrejas.

Sobretudo, tanto a Igreja Católica quanto as igrejas protestantes, nesta semana que é considerada santa deveriam reunir seus líderes e propor o que Cristo ensinou: amar ao próximo como a ti mesmo. Esta é a grande máxima do período quaresmal. Negligenciar o mandamento bíblico pode não ser a melhor opção diante de uma sociedade que vê nos atos de seus líderes religiosos exemplos que ferem a dignidade humana. Para muitas pessoas, a religião se tornou um meio para ganhar dinheiro e desenvolveu aversão por qualquer manifestação de religiosidade.

Por outro lado, não devemos ser legalistas, a ponto de achar que a liderança religiosa constitui-se de um grupo único que comete atrocidades e passa impune, tendo seus pecados perdoados pelo pedido de desculpas, como fez o Santo Papa ou os líderes da Igreja Renascer em Cristo, que se dizem arrependidos.

Não faltam exemplos de má índole entre os políticos, ateus e sociedade em geral. As notícias dos jornais provam que o período quaresmal deixou de ser um momento de reflexão para se tornar um período em que o ovo de páscoa assume o centro das reflexões, com incentivo ao consumo e que o verdadeiro sentido da quaresma está se tornando apenas mais uma data no calendário.

Fonte: O Globo

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