terça-feira, 9 de março de 2010

Consumismo e alternativas


“Consumismo” é consumir em excesso. Mas...o que é excesso mesmo?

Tornou-se praxe acusar o "consumismo" de causador de todos os males da sociedade contemporânea, sejam eles de cunho social (como a violência) ou ambiental (aquecimento global, poluição etc.).

Sem entrar no mérito da relação de causa e efeito propugnada nesses discursos, o que sempre me chama a atenção é o significado popularmente emprestado ao termo "consumismo".

Numa definição simples, poderíamos afirmar que o consumismo é o consumo em excesso. E "excesso" seria a compra que vai além do necessário, que atende apenas a "desejos e caprichos".

O problema é que "necessidades" e "desejos" não são conceitos definitivos, indiscutíveis. Pelo contrário; são bem abstratos, indefinidos, quase pessoais. À exceção das necessidades físicas (alimento, abrigo, sono, sexo), todas as demais são culturalmente construídas, de modo que necessidades ou desejos de consumo são tão verdadeiros e legítimos quanto quaisquer outros. O consumo é, em nossa sociedade, uma resposta a questões humanas, e não mero canal de suprimento de carências físicas.

Além disso, o tal "consumismo" não ocorre contra a vontade das pessoas. Ele representa, hoje, a vontade das pessoas. E mesmo que todos prontamente se engajem em discursos anticonsumistas, são poucos os que realmente mudam seu padrão de vida em função de uma pretensa consciência. Por quê? Voltamos ao parágrafo anterior: porque cada um tem a sua visão do que seja "consumismo" e "exagero", já que cada um entende "necessidade" e "desejo" de maneira diferente. Todos temos nossas próprias razões para dirigirmos carros que poluem, acumularmos roupas e mais roupas no armário, ou adotarmos sem remorsos as convenientes embalagens plásticas de decomposição lenta.

Beco sem saída, portanto? Nem tanto. Meu palpite é que embora o tal "consumismo" seja fruto da economia de mercado, não é seu subproduto inevitável.

Se há uma ideologia que afirma que o valor de uma pessoa se mede pela quantidade de bens que possui, há que se incentivar a construção de outra, tão forte quanto, que estimule o desenvolvimento de dimensões de prazer, satisfação pessoal e reconhecimento do indivíduo pelos seus pares que não apenas através da acumulação material.

Religião, família, atividades intelectuais e artísticas, o que seja: grupos de interesse aos quais as pessoas possam se filiar e nos quais o ethos dominante não seja o do progresso material.

Desejos e necessidades dependem do contexto, do ambiente no qual se convive. Se for estimulada a convivência em espaços nos quais as posses sejam menos valorizadas, é mais provável que as noções do que "precisamos" e "queremos" mudem.


O professor e consultor André D'Angelo comenta as ideias e as novas descobertas em comportamento do consumidor

Fonte: Revista Amanhã
Imagem: Internet

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