quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

“Não podemos servir a Deus e ao dinheiro”

ENTREVISTA José Mário Stroeher Bispo de Rio Grande

No ano em que contou com o reforço de outras igrejas além da Católica, a Campanha da Fraternidade elegeu adversários de peso: o capital especulativo, o lucro e o sistema financeiro internacional. Na entrevista a seguir, José Mário Stroeher, presidente regional da CNBB, explica o espírito da campanha:

Zero Hora – Qual é o objetivo da Campanha da Fraternidade?

José Mário Stroeher – O tema é a economia e a vida. A economia está muito organizada em torno do capital. Ainda estamos dentro da crise de 2008, e os bancos internacionais não estão aceitando regulamentação. O capital não quer ter normas, quer imperar. O capital é o grande ídolo, mas os cristãos dizem: não podemos servir a Deus e ao dinheiro. O dinheiro escraviza, amortece os valores.

ZH – Qual é o modelo proposto como alternativa pela campanha?

Stroeher – A proposta é que o sistema financeiro deve ser regulamentado, para que não vivamos com um dinheiro virtual, que vive à base de juros. Temos de ter regras para esse capital não ficar girando pelo mundo, buscando o lugar que remunera mais. Temos um sistema injusto, altamente concentrador de renda, que produz miséria. Para fazer frente a isso, precisamos qualificar a mão de obra, ter boas escolas, criar redes de economia solidária. Fala-se muito no agronegócio, mas a maioria dos alimentos, o feijão nosso de cada dia, vem dos pequenos agricultores.

ZH – Qual é o papel do consumismo na campanha?

Stroeher – Os bens, as roupas, o prazer, as drogas, tudo está a serviço do consumo, são instrumentos do dinheiro, para concentrar ainda mais o dinheiro. O consumismo é o homem tornar-se um predador. É depredar o ambiente, usar demais. Pregamos a sobriedade. Enquanto um tem demais, o outro tem fome. O consumismo leva ao desperdício.

ZH – O atual modelo econômico se alimenta do consumismo?

Stroeher – Sim. E ele alimenta o consumismo. É um círculo vicioso. Só se valoriza quem tem, e não quem é. A igreja é contra achar que a felicidade está em possuir bens. Porque a pessoa nunca fica satisfeita. Por que surge a droga, o crack? Porque só se está feliz quando se suga o máximo.

ZH – Por que a campanha faz uma crítica ao lucro?

Stroeher – Temos de pensar primeiro nas pessoas, na dignidade humana. Os cristãos não são marxistas, mas aprendemos com Marx que depois da dignidade da pessoa, temos de ser a favor do trabalho, que deve vir antes do lucro. Não somos contra o lucro, mas tem de ser um lucro que não explore.

Fonte: Zero Hora

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