domingo, 28 de fevereiro de 2010

Amor e ódio ao Super-Homem


Talvez só Mickey Mouse possa derrotar o Super-Homem. Talvez as orelhas redondas sejam mais reconhecidas ao redor do mundo que a imagem do “S” vermelho no fundo amarelo e azul. Talvez. O filho de Krypton, no entanto, costuma ser imbatível entre os ícones mais famosos. E intocável em seu posto de herói maior das HQs. Por isso, é o mais amado. E, por isso, o mais atacado.

São variadas as conspirações para derrotá-lo. Religiosas, sociológicas, psicológicas, semióticas, políticas, esquerdistas, direitistas, físico-químicas, fashionistas. Pura implicância. Pura implicância inútil.

O Super-Homem sobrevive impávido, colossal, invulnerável, idolatrado sobretudo. Tanto que a revista Action Comics de junho de 1938, que o trouxe na capa e o apresentava ao mundo, foi arrematada por US$ 1 milhão (venda superada pelo nº 27 da Detective Comics, de 1939, que traz a primeira aparição do Batman: US$ 1.075.500). Coisa de colecionador (investidor, claro), de fã. Alguém que não é fã, desses desmedidos, se imagina pagando um preço alto desses por um gibi?

O valor é só aclamação a quem está por mais de sete décadas no topo do ecossistema dos super-heróis. Nada, até hoje, conseguiu derrubar o Super-Homem. Muitas tentativas, nenhum sucesso.

Comecemos por um golpe baixo. Quiseram insinuar ser o Super-Homem uma heresia, uma afronta a Deus, algo satânico, um anticristo, a imitação do messias. Os argumentos: caiu na Terra vindo do céu. Vem de Krypton, um paraíso com pessoas saudáveis, cultas, perfeitas. Prega a justiça e um mundo melhor. De código genético intrigante, assim como Jesus Cristo, homem e divindade, poderoso e salvador. Quando abre a camisa e mostra o “S” no peito, disseram, seria como Cristo mostrando o milagroso coração ferido.

Até os ateus o usaram. Dizem que se a Bíblia é a prova da existência de Cristo, as HQs seriam a prova da existência do Super-Homem.

Passemos a golpes, digamos, mais intelectualizados. O Super-Homem seria o portador da propaganda ideológica capitalista dos Estados Unidos, arauto da nação dominante e preservadora da humanidade.

Ele usa as cores da bandeira americana, carrega valores conservadores. Como Clark Kent é um típico caipira do Kansas, não questiona o status quo, representa o bem contra o mal, tipo físico musculoso, viril e caucasiano.
Se a esquerda reuniu todo este arsenal contra, a direita não deixou por menos e chegou a se queixar que a capa dele era vermelha demais.

Vejamos as tentativas científicas para abalá-lo. Seus poderes agridem às leis da física. Voa sem propulsão, tem força ilimitada sem consumir quantidades gigantescas de energia (nem o Sol seria suficiente). A biologia faz chacota: tecido orgânico impenetrável, à prova de tudo?

Agora a apelação psicológica. O fã iria querer deixar de ser um simples Clark, reprimido e medíocre, e ambicionar ser o Super, o que tudo pode. Tentar alcançar um modelo imposto, inalcançável, ponte para frustrações.
Nem a aparência escapou. É visto como um bombadão metido em um colante para mostrar o músculos, com uma sunga por cima, uma capa inútil e botas vermelhas, cafonas e nada másculas.

Os piores golpes vieram da própria editora, a DC Comics. Na tentativa de tirá-lo do marasmo, torná-lo mais gente, próximo ao público, alavancar as vendas, o mataram, o ressuscitaram, o casaram, o enfraqueceram, o corromperam. Até seus poderes alteraram. Virou uma criatura eletromagnética, de pele azul, exalando eletricidade, meio Magneto, meio Tempestade, meio smurfão.

Deu-se a revolta dos admiradores. Até os leitores que não o tinham em grande conta, por achá-lo certinho demais, embarcaram no protesto: “Com o Super não!”

Nenhum dos perseguidores sacou o elementar: o Super-Homem é um clássico épico. O arquétipo do herói, assim como o mitológico Hércules, como o bíblico Sansão. O sonho humano de romper barreiras naturais, de querer ser mais do que é.

Nenhum garoto, com uma capa nas costas, acha que voa de verdade. Só quer se imaginar voando. Nenhum deixa de rezar a Papai do Céu, nem pensa em trocá-lo pelo Super-Homem nas orações. Nenhum supõe Jesus usando visão de calor, sopro gelado e socos ultrapotentes para derrubar os soldados romanos. Algum pai ou mãe já viu isso?

Em jogo de Copa do Mundo, Brasil x qualquer um, alguém deixa a camisa amarelinha do craque de coração pelo padrão ianque por influência do Super-Homem? E se ele fosse tão capitalista selvagem, não lutaria contra Lex Luthor, megabilionário, quase dono de Metrópolis, e ruinzinho aos moldes dos clichês socialistas.

Trata-se de um ser imaginário. O bravo, o perseverante, altruísta, forte, defensor dos fracos, habitante do inconsciente coletivo em todas as culturas, em todas as épocas, agora em versão moderna.

O garoto que lê as revistas no ônibus após um dia de aulas, da prova pauleira, do boletim meio baqueado, quer apenas escapar da rotina, viajar a planetas distantes, irreais, ver seu ídolo lutar com seres incríveis, apanhar, persistir, usar seus superpoderes da hora, vencer, abater o mal, sentir-se vingado. É calmante e é estímulo.
Acusar o Super de caretice até pode. Faz sentido. Mas o conjunto honestidade, bondade, lealdade e justiça não é o que todo mundo cobra de todo mundo?

Assim, ociosos e raivosos, aos que tramam qualquer tese contra o Super-Homem, um conselho: desistam, preencham seu tempo com outra coisa. Nem os maiores vilões do universo se deram bem. Aos que tramam sem nem uma lasca de kriptonita no bolso, conselho final: desistam.

Breve histórico
* O Super-Homem foi criado pelos americanos Jerry Siegel e Joe Shuster;
* Antes de ser o herói que conhecemos, surgiu como um vilão alienígena que implantou seu império na Terra. A história foi publica no fanzine Science Fiction 3;
* Quando mudou sua imagem para combatente do mal, teve uma fase preliminar arrogante. Usava seus poderes sem se importar se assustava os civis ao redor;
* A primeira aparição do Super-Homem com seus valores atuais foi em Action Comics 1, em junho de 1938. Seu principal combate era contra os nazistas;
* Começou a voar em 1941. Antes, ele saltava prédios;
* Na década de 1990, foi assassinado pelo monstro Apocalypse, ressuscitou e casou com Lois Lane;
* Faz aniversário em 29 de fevereiro, data escolhida para fazer uma alusão ao fato dele envelhecer quatro vezes mais devagar que os seres humanos.

MIGUEL RIOS é jornalista

Fonte: JC Online

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