quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

ONU admite erro sobre Himalaia

Alerta sobre total derretimento das geleiras até 2035 não tinha base científica, reconheceu o painel do clima

Carlos Orsi, Afra Balazina e Ap

Uma advertência da Organização das Nações Unidas (ONU) de que as geleiras do Himalaia estavam derretendo mais rapidamente do que em qualquer outro lugar do mundo e que poderiam desaparecer até 2035 está mal fundamentada cientificamente, admitiu ontem o painel do clima da ONU (IPCC).

A informação no relatório "refere-se a estimativas com poucas comprovações sobre a taxa de derretimento e a data do desaparecimento dos glaciares himalaios", disse o IPCC. "Ao escrevermos o parágrafo em questão, os padrões claros e bem estabelecidos de evidências, exigidos pelos procedimentos do IPCC, não foram aplicados corretamente."

As afirmações sobre as geleiras himalaias, parte do volumoso relatório do grupo que venceu o Prêmio Nobel em 2007 junto com o ex-vice-presidente americano Al Gore, eram pouco conhecidas até o jornal The Sunday Times dizer que a projeção parecia ser baseada em uma matéria jornalística.

Os líderes do IPCC investigam como a previsão foi parar no relatório, disse Chris Field, diretor do departamento de ecologia do Instituto Carnegie para Ciência. O painel da ONU não deu novas estimativas sobre quando os glaciares do Himalaia podem desaparecer, mas disse que "grandes perdas de glaciares e reduções na cobertura de neve nas últimas décadas devem se acelerar no decorrer do século 21".

A falha assumida pelo painel poderá será usada pelos chamados "céticos do clima" colocarem em xeque a gravidade do aquecimento global. No ano passado, eles aproveitaram a invasão dos servidores da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e a exposição das mensagens para dizer que dados haviam sido forjados. Não há, porém, provas concretas.

O ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, criticou o painel. "A saúde dos glaciares é causa de grande preocupação, mas a posição alarmista do IPCC de que eles poderiam derreter completamente até 2035 não foi baseada nem um pouco em evidência científica", disse ao The Times of India.

O painel do clima da ONU afirma que "o presidente, o vice-presidente e os copresidentes do IPCC lamentam a má aplicação dos procedimentos bem estabelecidos do IPCC neste caso".

FONTES DE ERROS

O 4º Relatório de Avaliação do IPCC de 2007 dizia que os glaciares do Himalaia estavam recuando mais rapidamente do que em qualquer outro lugar e, em uma nota confusa, que a área total da geleira "vai provavelmente encolher dos atuais 500 mil quilômetros quadrados para 100 mil quilômetros quadrados até o ano de 2035".

Em carta enviada à revista Science, quatro cientistas apresentaram as prováveis fontes das informações falsas. A afirmação de que as geleiras estão regredindo no Himalaia mais depressa do que em qualquer outra parte do mundo teria sido extraída de um comunicado da ONG WWF. A entidade, por sua vez, citava reportagem da revista New Scientist a respeito de um estudo "não publicado" e "que não compara a taxa de perda de gelo no Himalaia com outras geleiras". Além disso, o trecho que fala que a área total provavelmente encolherá para 100 mil quilômetros quadrados não poderia se referir ao Himalaia, cuja área de geleiras é de 33 mil quilômetros quadrados. Porém, ressaltam que os relatórios do IPCC de 2007 são "majoritariamente corretos".

Na opinião do secretário executivo da Convenção do Clima da ONU, Yvo de Boer, a credibilidade do IPCC depende do rigor com que os procedimentos são cumpridos. "Os procedimentos foram violados neste caso. Não se deve permitir que isso aconteça de novo." Ele reforça, no entanto, que "ninguém nega que as geleiras do Himalaia estejam desaparecendo rapidamente como resultado das alterações climáticas". "O que está acontecendo é comparável ao Titanic afundar-se mais lentamente que o esperado", disse.


PAINEL CIENTÍFICO

História: criado em 1988,
o painel do clima da Organização das Nações Unidas (IPCC) avalia o conhecimento existente sobre as mudanças climáticas globais. Reúne cientistas do mundo todo e já produziu quatro relatórios. Em 2007, recebeu, com o ex-vice-presidente americano Al Gore, o Prêmio Nobel da Paz

Objetivo: o IPCC não faz novas pesquisas, mas reúne dados de estudos já realizados. Todo o processo tem de ser baseado em peer-review - revisão dos pares - para evitar fraudes científicas

Críticas: ambientalistas questionam a politização do IPCC. Isso porque os resumos dos relatórios precisam ser aprovados pelos governos patrocinadores

Fonte: O Estado de S. Paulo

Nenhum comentário: