sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

EUA dão asilo à família alemã que quer educar filhos em casa

Uwe Romeike é pai e professor de seus filhos Josua e Lydia

Familia do sul da Alemanha ganha asilo nos EUA para poder educar filhos em casa. Justiça americana a considerou vítima de perseguição em seu próprio país, onde a educação exclusivamente domiciliar é proibida.

Para muitos cidadãos de países em desenvolvimento, a Alemanha é sinônimo de terra prometida. Alguns arriscam seus bens, a saúde e a até a vida para chegar ao país e encaminhar um pedido de asilo. No caso da família Romeike, entretanto, é diferente.

Eles deixaram sua pátria, a Alemanha, em agosto de 2008 e entraram como turistas nos Estados Unidos, onde pediram asilo. O motivo é que eles querem educar seus filhos em casa, sem ter que enviá-los à escola. E a Alemanha é um dos poucos países na Europa onde isso é proibido.

Nos EUA é diferente. Recentemente, um juiz da cidade norte-americana de Memphis concedeu asilo à família, baseado no que considera uma violação aos direitos humanos pelo Estado alemão. Desde que chegou à sua nova pátria, a família vive em Morristown, uma pequena cidade industrial no estado do Tennessee.

Leitura da Bíblia é aula de inglês

O dia escolar dos pequenos Damaris, Christian, Josua, Lydia e Daniel, com idades entre 3 e 11 anos, começa com a leitura da Bíblia em inglês. A atividade, realizada em uma grande mesa de madeira, é ao mesmo tempo uma aula de inglês ministrada pelo pai das crianças, Uwe Romeike.

Daniel e Lydia frequentaram a escola de Bissingen, no estado alemão de Baden-Württemberg, durante alguns anos. Mas nesse período, segundo a mãe, Hannelore Romeike, eles se tornaram quietos e pouco ativos.

Os pais decidiram então ensinar seus filhos em casa. Lydia diz que gosta. Porque agora já não tem que ficar com medo das outras crianças. Ela conta que seu irmão Daniel ficou com o nariz sangrando, depois de ter levado uma pedrada de um colega de turma.

Mas os Romeike têm outras razões para não enviar seus filhos à escola. Segundo a mãe, em casa, eles podem controlar o conteúdo e o ritmo do processo de aprendizagem das crianças. Além disso, os pais podem decidir quais livros usar, como também os valores a ser transmitidos.

Ensinar segundo valores cristãos

Os Romeike desejam que seus filhos sejam educados de acordo com os valores cristãos, que tenham respeito pelos pais e professores, que aprendam a dizer a verdade e a se comportar corretamente. As palavras da Bíblia devem ser um modelo em todas as disciplinas.

"Temos visto nos livros escolares que a educação nunca tem valor neutro. Você não pode compartilhar só educação sem transmitir seus próprios valores. Então, nós comunicamos os nossos valores, porque de outro modo não temos influência sobre o que os professores ensinam", afirma Hannelore Romeike.

Os Romeike estavam cientes de que na Alemanha existia a obrigatoriedade de frequentar a escola. Mas tinham esperança de que as autoridades os deixassem em paz ou aplicassem apenas uma pequena multa. Entretanto, essa esperança foi destruída pela polícia.

Crianças foram levadas à força para escola

"Fomos praticamente acordados pela polícia. Não abri a porta, pensei que iam embora. E então os policiais ameaçaram arrombar a porta. As crianças foram transportadas para a escola chorando e minha mulher os apanhou em seguida, durante o recreio", lembra Uwe Romeike.

O medo da família foi crescendo. Medo compartilhado também por outras famílias. Hannelore Romeike mostra uma carta que sua irmã recebeu recentemente. Ela também educa seus filhos em casa e foi ameaçada na carta com multas de até 50 mil euros, prisão e perda da custódia dos filhos.

Na cidade de Morristown, há muitas famílias que educam seus filhos em casa. Eles ajudaram os Romeike doando móveis, pratos e outros objetos. A família alemã chegou aos Estados Unidos como turista, levando apenas algumas malas.

Entidade apoia "homeschooling"

Os Romeike têm apoio da Associação de Defesa Legal da Escola Domiciliar (HSLDA, na sigla em inglês). A entidade defende os que têm problemas por ensinarem seus filhos em casa. O chamado homeschooling é permitido legalmente em todos os 50 estados americanos. O HSDLA tem seus próprios advogados, e foram eles que apresentaram o pedido de asilo dos Romeike.

O advogado da HSDLA, Mike Donnelly, afirma que, para um pedido de asilo, é necessário provar que o medo de sofrer perseguição em seu país de origem – por pertencer a um grupo religioso, político ou social – é fundamentado. E esse seria o caso dos Romeike, justifica.

"Acreditamos que na Alemanha as famílias que ensinam seus filhos em casa pertençam a um grupo à parte da sociedade. E que eles certamente são vítimas de perseguição, por causa do valor da multa de até 50 mil euros, porque os pais são ameaçados de perda da custódia dos filhos e de prisão", diz Donnelly.

Recentemente, o juiz Lawrence Burman, após uma audiência em Memphis, decidiu conceder asilo à família Romeike. Em sua opinião, "as pessoas que querem ensinar seus filhos em casa formam um grupo social especial que o governo alemão tenta reprimir". "Essa família tem um receio fundamentado de perseguição. Por isso, ela tem direito a asilo, e o tribunal concederá este asilo", concluiu o magistrado.

Autora: Christina Bergmann (md)Revisão: Carlos Albuquerque

Fonte: Deutsche Welle

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