quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Cinema é comentário social, diz diretora

Cineasta Kathryn Bigelow assina "Guerra ao Terror", primeiro filme sobre o Iraque a acumular prêmios e boas críticas

Produção estreia em 5/2 nos cinemas, após ter saído em DVD; ex-mulher de James Cameron, diretora vai filmar na fronteira Brasil-Paraguai





Fotos Divulgação
Cena de "Guerra ao Terror", que saiu em DVDe vai para o cinema após sucesso em premiações



FERNANDA EZABELLA
DA REPORTAGEM LOCAL

O escritório de Kathryn Bigelow está de cabeça para baixo. Prêmios se acumulam pelos cantos, ao lado de convites para cerimônias que não param de chegar. É o ápice de uma trajetória de cinco anos que ninguém sabe quando vai passar.

Bigelow tem 1,82 metro de altura, voz doce e calma, porte de atriz de cinema, embora seja diretora de filmes de aventura, não raro bastante violentos, como aquele que revelou Keanu Reeves ao mundo, "Caçadores de Emoção" (1991), ou "Jogo Perverso" (1989), com Jamie Lee Curtis de policial.

Agora, aos 58 anos, ela conseguiu o que muitos marmanjos vinham tentando: foi ao Oriente Médio fazer o primeiro filme sobre o conflito do Iraque a dominar a temporada de prêmios.
"Guerra ao Terror" (no original, "The Hurt Locker", expressão para "grande sofrimento") registra a rotina de uma unidade antibombas dos EUA em Bagdá. Já acumula 16 estatuetas de melhor direção e outras 30 em categorias diversas.

"Tem sido uma experiência gratificante e bem surreal. Acho que esse filme pegou no nervo das pessoas", diz a diretora americana, por telefone, de sua casa em Los Angeles (EUA). "É uma lente de aumento numa situação bastante difícil e verdadeira no Iraque."

Por causa dos "baixos resultados comercias" de outros longas sobre conflitos recentes, "Guerra ao Terror" foi direto para DVD no Brasil, em meados de 2009, explica o distribuidor. Com a consagração no exterior e maior acesso ao material, a Imagem Filmes resolveu levá-lo aos cinemas em 5/2.

Como Bigelow diz, seu filme não é um panfleto político contra a guerra, e sim a história de soldados num combate que, ao contrário do Vietnã, não tem alistamento obrigatório. "Não vou generalizar, mas, para alguns indivíduos, o combate pode ser uma coisa sedutora."
Tampouco divaga entre dramas de soldados que voltam para casa, como os inéditos "Entre Irmãos" e "The Messenger".

"Estou interessada em cinema como comentário social. E como entretenimento também, é claro", diz. "O filme deixa você ver pela perspectiva do soldado e formar sua opinião. [...] Mostra a futilidade desse conflito em particular, você sai do cinema mais informado."

De fato, o filme traz diversas cenas em que o espectador se vê na pele do soldado, em direção a uma mina de explosivos. Bigelow conta que essa ideia de um "cinema totalmente imersivo" já estava no roteiro de Mark Boal, jornalista que passou semanas com o Exército em Bagdá, em 2004.

Em 2005, Boal e Bigelow começaram a trabalhar no roteiro, que só filmaram em 2007, após dedicar o ano anterior a levantar fundos. Bigelow se recuperava de um filme de grande orçamento catástrofe de bilheterias, "K19- The Widowmaker" (2002), com Harrison Ford, e passou os anos seguintes vivendo de comerciais.

Verão de 46ªC
"Guerra ao Terror", que competiu em Veneza 2008, foi feito com US$ 11 milhões, uma mixaria se comparado a "Avatar", de mais de US$ 200 mi. Mas ambos têm se enfrentado em prêmios e podem repetir a briga no Oscar -nunca uma mulher ganhou em direção. Curioso também é que ela e James Cameron, de "Avatar", são mais que amigos: casaram-se em 1989 e ficaram juntos por dois anos.

"É uma coincidência bastante estranha, mas uma disputa extraordinária", fala a diretora, cujo ex-marido foi quem insistiu para ela filmar o projeto. Num vídeo na web, Cameron diz sobre a obra: "Tem grandes chances de ser o "Platoon" da Guerra do Iraque".

Festas de gala com celebridades em nada têm a ver as dificuldades que Bigelow passou durante os cinco meses na Jordânia. Ela filmou num acampamento de refugiados palestinos, na fronteira com o Iraque, em pleno verão de 46ºC.

"As vestimentas antibomba eram de verdade, com mais de 40 quilos. Foi uma experiência penosa para Jeremy Renner, fiquei bem tensa por ele", diz a diretora sobre o ator principal.
A próxima aventura de Bigelow será em outra fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai. O roteiro de "Triple Frontier" está sendo trabalhado por Boal, em segredo. "O projeto está muito embrionário, mas quero continuar com essa ideia de comentário social."


Crítica/ "Guerra ao Terror"

Filme vai na contramão do cinema de ação dos EUA

ANDRÉ BARCINSKI
CRÍTICO DA FOLHA

"Guerra ao Terror" é o mais radical experimento cinematográfico saído de Hollywood em muitos anos. Um filme emocionante e surpreendente, que merece estar em qualquer lista dos melhores filmes de guerra já feitos.

A história acompanha 38 dias na vida de um trio de soldados americanos no Iraque, cuja missão é desarmar bombas escondidas em estradas, prédios e carros de Bagdá.

Logo no início, o grupo perde seu líder, morto por uma bomba. Seu substituto é o sargento William James (o ótimo Jeremy Renner). James tem um dom quase paranormal para desarmar explosivos, mas sua arrogância e seu aparente destemor põem os companheiros em frequente risco de vida.

O filme anda na contramão do moderno cinema de ação hollywoodiano: no lugar da violência estilizada e da fotografia de publicidade de muitos filmes do gênero, a diretora Kathryn Bigelow optou por um tom documental, com câmera na mão e imagens sujas e granuladas, como um noticiário de TV. O efeito é hipnotizante.

Bigelow não pinta a guerra em tons grandiloquentes. Batalhas são disputadas em ruas empoeiradas e becos estreitos. Não há heróis nem duelos ao entardecer. Tiroteios não são coreografados como balés, e terminam sem clímax ou vencedor. Ela mostra que não compactua com a visão de filmes de guerra como faroestes bélicos.

Uma das cenas mais impressionantes de "Guerra ao Terror" traz o grupo surpreendido por uma emboscada no meio do deserto. Os soldados localizam os atiradores, escondidos em um casebre a cerca de um quilômetro de distância. Segue-se um tiroteio dos mais angustiantes que o cinema já viu: os dois lados disparam tiros usando rifles de longo alcance. Ouve-se o zunido das balas, que demoram a chegar ao destino, devido à distância. Essa demora, e o suspense provocado por não saber onde os tiros vão cair, dão à sequência a impressão de um mórbido jogo de xadrez.
Bigelow estende a cena por mais tempo do que qualquer manual de roteiro indicaria. Por vários minutos, os soldados, desidratados e famintos, estirados na areia escaldante do deserto, esperam pelo próximo tiro do inimigo invisível. Ninguém fala nada. Até que um deles diz: "Acho que encerramos por hoje. Vamos embora". A mensagem é clara: a guerra não é uma aventura, mas um monótono ritual de morte.

Avaliação: ótimo

Estreia nos cinemas em 5 de fevereiro

Frase

O filme deixa você ver pela perspectiva do soldado e formar sua opinião. E mostra a futilidade desse conflito

KATHRYN BIGELOW,
diretora de "Guerra ao Terror"


Fonte: Folha de S. Paulo

+ O vício da guerra

Nenhum comentário: